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Parte histórica
Introdução: uma devoção na Igreja e para a Igreja
Em um simbólico lugar da Mancha, morada de homens e mulheres de fé, Villanueva de los Infantes, nasce a primeira imagem visível de Nossa Senhora do Encontro com Deus.
Uma paróquia e um pároco, por um lado, e um sacerdote missionário e fundador, por outro, foram os instrumentos escolhidos pela Mãe de Deus para dar vida a esta devoção mariana de profundo significado e de sólidas raízes bíblicas.
O liame entre esses sacerdotes foi um casal fervoroso e mariano de paroquianos de Villanueva de los Infantes. O papel que ocupam nesta história é central e sua menção é indispensável. São eles: Senhor Loreto e senhora Paquita Sánchez.
Como referência documental, tomamos o livro Nossa Senhora do Encontro com Deus, processo histórico¹, que cita os dados referentes aos fatos reais em um conjunto literário de inspirada beleza. Um mosaico de história e arte redigido por dona Paquita Sánchez Remiro, uma experiente docente e cristã comprometida.
Na Igreja e para a Igreja surge essa devoção mariana. Sem a Igreja, ela não teria sentido. A Virgem, Mãe do Povo de Deus, manifesta-se como fermento e alma da comunhão intra e extra Ecclesiae, dando coesão a essa massa de fiéis e pastores. O “princípio mariano”² da presença de Maria no mistério nupcial da Igreja que concretiza sua atividade profunda e discreta.
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Padre Luis Gallego
O instrumento utilizado pela Providência mariana foi o Padre Luis Gallego, sacerdote diocesano da Cidade Real, na Espanha. Seu nome e seu coração aparecem na gênese dessa devoção. Nascido em 1943 e ordenado sacerdote em 1969, encontrava-se à época aposentado, depois de estar à frente de uma das mais importantes paróquias de sua diocese. Entusiasta, piedoso, com fogo evangelizador, e um declarado ardente servo da Virgem Maria.
Sua “santa ânsia” de canalizar uma inspiração interior, sussurrada ao ouvido de sua alma por Maria, sua Mãe, levou-o ao que hoje conhecemos como o “Encontro”, que apoia uma atribuição e um serviço da Mãe de Deus.
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Cidade de Villanueva de los Infantes e seu templo paroquial
Vila e cidade, declarada assim pela rainha regente Maria Eugênia em 1895, Villanueva de los Infantes, capital do Campo de Montiel, foi o cenário onde passaria a história que nos ocupa. Está situada no coração da Mancha, teatro não fictício do surgimento da mais bela Dulcineia celestial. Não se narra um relato mítico, mas um roteiro vivo, terno e materno.
O lugar é bastante conhecido por ter inspirado Cervantes a escrever sua obra “Don Quijote de la Mancha”, onde viveram grandes escritores do século de ouro espanhol, o próprio Cervantes ou Quevedo, que ali faleceu; e onde surgiram santos da envergadura de Santo Tomás de Villanueva, fervoroso devoto da Virgem Maria e grande arcebispo de Valência.
Sem ambições mundanas, muito pelo contrário, em roupagem de humildade e serviço, uma vez que a Virgem Maria é escrava para todos os efeitos, neste local de heroísmos centenários e milenares, tem lugar o surgimento de um personagem que não queremos esquecer e que cruzará fronteiras.
A paróquia local foi dedicada ao Apóstolo Santo André e sua construção foi finalizada no século XVI. Seu estilo é uma mistura de plateresco e neoclássico herrerianos, destacando-se como o monumento mais famoso dessa vila edificada por fidalgos. A Paróquia será o marco da primeira imagem de Nossa Senhora do Encontro com Deus.
Não se trata de uma questão qualquer, insignificante. Abstendo-nos de comparações despropositadas, para esta nobre população sua Paróquia será como o Tepeyac, Aparecida, a Cova da Iria, em que Santa Maria mostraria seu amor e benevolência, mostre seu rosto e traga a Salvação e o Salvador.
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Encontro definitivo com Deus, e um olhar misericordioso e intercessor de Mãe
Remontamos neste momento à origem de tudo, conforme a exposição original, adentrando na mente da pessoa escolhida. O que pensava ela?
Em 1965, o pároco Luis Gallego era um jovem seminarista e se encontra no momento de seu último adeus ao falecido pai. Meditava profundamente em seu coração sobre a presença de Maria no momento crucial da morte, no qual o homem se encontrará definitivamente com Deus. Tinha plena convicção acerca da salvação de seu pai. Não eram ideias destrutivas ou perturbadoras, mas sim um gozo, felicidade, alegria por alguém que tantas vezes havia recitado com fé a Ave-Maria: “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Seria um atrevimento pensar assim? Blasfêmia? Não, ponderou ele. Mais adiante, um sacerdote lhe confirmaria que tal pressentimento tinha sido dado por Deus.
Seu pai não morrera no desamparo nem na agonia desconhecida do futuro, mas nas mãos de Maria. Esse pensamento o inundava de uma paz indescritível.
De modo significativo, o falecimento do pai deste santo seminarista ocorreu em dois de fevereiro de 1965, festa da Apresentação do Senhor, a Hipapanté, no grego bizantino, que significa “encontro”.
“Os que morrem, não morrem sozinhos”, afirmou o Pe. Luis. Em absoluto desprendimento de tudo, somente diante da verdade de sua vida e perante Deus que perscruta e sonda o mais profundo de cada um, existe uma presença materna, a Mãe que “está” (cf. Jo 2, 1ss; Jo 19, 25ss), com uma assistência efetiva e intercessora, beneficente. A Grande Dama (gebirah) messiânica que coloca seu poder de intercessão a serviço de seus filhos.
O sacerdote, imbuído de uma espécie de ardor mariano, continua nos presenteando com detalhes de sua “divina inspiração” na qual imagina o instante feliz em que Maria prepara o encontro da alma com Deus:
Ela, sem sombra de dúvidas, estaria ali! (…) Recordando-nos inúmeras faltas de correspondência à graça de Deus, que tornaram ineficazes os projetos de santidade que Deus nosso Pai tinha para cada um de nós. Fazendo-nos ver as inumeráveis ofensas ao Senhor… Ela nos faria repetir: Senhor, tende piedade!
Sentindo-nos por ela não rejeitados, mas protegidos, vistos por seus olhos misericordiosos. Sentindo o calor de seu coração, ela nos conduziria ao arrependimento e à gratidão por tantos bens recebidos e não correspondidos. Ela nos prepara ao “encontro com Jesus”. Como os adultos que apresentam as crianças pequenas a Jesus, seremos reconhecidos como filhos de Maria e, portanto, filhos adotivos de Deus. Jesus nos leva ao Pai, no Espírito Santo. E esse trágico passo da morte se converte em uma epifania divina de “encontros”.
Maria é a mãe que gera em nós a esperança firme e indelectível. Maria, causa de nossa esperança e esperança certa para todos os homens, até para os mais afastados de Deus.
Ela é a advogada eficaz no instante que antecede a eternidade feliz ou infeliz, se nos deixarmos, ou não, abraçar por Deus, abertos à sua inconcebível misericórdia e nesta misericórdia, nos arrependermos de nossos pecados.
Uma frase resume o poder de súplica de Maria, no momento final da existência terrena: “Não por nossos méritos, mas pela intercessão da Virgem Maria todos chegaremos à plenitude de Cristo”.
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Confecção da imagem, rosto da titulação devocional
Transcorridos quase 25 anos da partida de seu pai à Casa do Pai, o Pe. Luis Gallego, já bem estabelecido em sua paróquia em Villanueva, teve a inspiração de colocar uma imagem de uma dedicação tão carinhosa na abside da igreja paroquial, concretamente em uma extremidade que se encontrava vazia, quase como que solicitando a terna presença de Maria.
4.1. Pedido de ajuda a um casal
O bom pároco encontrou um excepcional auxílio em um casal da região, Loreto e Paquita. De modo privilegiado, foram co-promotores dessa devoção com todo o fervor de sua alma, com toda a sua vida e com tudo o que são, não poupando meios para propagar a memória e a presença dessa Mãe, publicando livros, dedicando-lhe tempo e bens pessoais.
4.2. Uma cerâmica, a primeira imagem
É típico do interior da Espanha nos séculos passados usar cerâmica para moldar motivos de decoração, quer sejam religiosos ou meramente ornamentais, artísticos. Esse material acolherá a primeira escultura do rosto de Maria do Encontro.
“Agora era preciso um rosto” que desse visibilidade a esse munus materno de Maria. “Procuraram pinturas e imagens da Virgem, com o desejo de encontrar uma expressão mariana que desse cumprimento a nossos desejos: deveria ser uma Virgem que nos movesse ao espírito de piedade, que tivesse o Menino em suas mãos, que olhasse para os homens, que estivesse em consonância com a estrutura da igreja”, “que voltasse seu olhar modestamente aos homens, que fosse bela e que nos levasse a rezar”.
Por fim, obtiveram um protótipo adequado, que supunha o ponto de início de uma aventura de amor de uma mãe por seus filhos. Com esse protótipo, seriam reproduzidas as imagens em cerâmica imprimindo o semblante de Maria.
Encomendaram, então, a um dos melhores artesãos a pintura sobre a cerâmica, em Talavera de la Reina, que executou com primor a obra da imagem desejada. Pretendia-se, com intenção angelical, que a visão da imagem provocasse uma íntima lembrança da Mãe, e que dessa lembrança seguisse uma comunhão com Deus e com os irmãos. Contemplar Maria traria como necessária consequência um olhar para o Outro e para os outros.
4.3. O Nome “Encontro”
Embora havendo a preciosa ideia da prerrogativa mariana, e se dispondo de um rosto adequado, ainda que nunca suficientemente belo, se carecia agora de um nome para a devoção. Como se chamaria essa figura de Maria, que a caracterizasse pela função que se desejava expressar?
Um passo nada fácil foi o de dar o nome desejado por Deus a esse ícone. Várias pessoas próximas ao pároco, incluindo o casal e outro sacerdote amigo presente em Villanueva trouxeram inúmeras sugestões de nomes para caracterizar a devoção. Como dar nome a uma tão sublime função mariana? Quando nos entrega o bálsamo do consolo e se enxugam as lágrimas, a chamamos de Virgem da Consolação; quando intercede por nós, a chamamos advogada ou medianeira; quando lhe pedimos socorro, Auxiliadora; quando nos tira da miséria e do pecado, Mãe compassiva, clemente e misericordiosa; quando nos facilita a graça de Deus, Senhora das Graças. Como chamá-la, então, quando nos assiste prodigiosamente e nos leva ao abraço com Deus, com a Trindade, no momento da morte? Ali estava um desafio ao Espírito Santo!
Decidiram posicioná-la em um nicho na parte traseira da igreja, que aguardava uma imagem: a imagem! Após muito pensar e rezar, surgiu, dos lábios de D. Loreto, o título adequado. E pronuncia a palavra “encontro”, com uma simplicidade e lucidez que vinham de uma luz superior. O Pe. Luis imediatamente acolheu a intervenção como a melhor expressão para conceituar a função de Maria: Ela é a que nos leva e nos encaminha ao “encontro” com Deus. “Encontro” atribuído à Mãe de Jesus, que brotou espontaneamente, com a força do Espírito Santo, no coração de um homem simples apaixonado pela Virgem Maria. E o pároco vislumbrou nesse vocábulo o Coração de Maria latente na imagem. Nomen est omen, “o nome é o presságio”, define e aclara uma realidade.
No entanto, o título não se limitaria ao “encontro” definitivo com Deus na outra vida, ao se cruzar o umbral da morte, mas se estenderia a todo “encontro” diário com Deus, e desde Deus, todo o “encontro” com os irmãos e cada irmão, que é a imagem de Deus.
Aquele dia fora escolhido pelo Deus dos nomes e das pessoas para “batizar” a nova devoção: “Nossa Senhora do Encontro com Deus”. Naquele momento, Ela já tinha um nome e poderíamos, a partir de então, invocá-la com confiança sob essa nova devoção.
Tinha início sua trajetória, como um pintinho que rompe a casca do ovo, uma devoção destinada a preencher com uma fragrância mariana seu odor a Jesus, a Deus.
Aquela que, no seio da Sagrada Família, fez-se favorecedora do “encontro” para os demais membros dessa comunidade de vida, seria promotora de todo “encontro”. Acaso sua prima Isabel, os pastores e os reis magos não encontraram o Menino com sua Mãe?
A Virgem foi o “lugar de encontro” para todos, um lugar de encontro querido pelo Pai. De modo que assim, todo encontro com Maria culmina em um encontro com Jesus. Sua Santidade Paulo VI afirmou com certeza e precisão: “Todo encontro com Ela não pode terminar senão em um encontro com Cristo”.
A que sai ao “encontro” do homem, de todo e cada homem: seja pobre ou rico, seja crente ou pagão, seja sábio ou ignorante. E esse encontro alivia o sofrimento, ilumina mentes, enche de entusiasmo os corações, abre caminho, fortalece a esperança, conduz ao encontro e quase a uma fusão com o Deus que nos ama de uma forma profunda e cativante. Maria é como o vigário do encantador amor de Deus.
4.4. 31 de maio de 1993: bênção da primeira imagem. Visitação de Nossa Senhora
Santo Tomás de Villanueva, santo insigne que viveu na vila onde surgiu a imagem, ensinou que o Espírito Santo quer gravar em cada um de nós uma marca ou selo mariano. Também desejava que a nova imagem fosse capturada pela retina de todos os bons católicos de Infantes, e tudo foi acontecendo com uma velocidade celestial. Ele explica:
Solte as rédeas do pensamento; alargue os limites da inteligência; atreva-se a imaginar o quanto possa; acrescente tanto quanto seja possível: maior é essa Virgem, mais excelente e superior é essa Virgem. O Espírito Santo não a descreveu com letras, mas a deixou para que a pintássemos em nossa alma, e assim entendêssemos que nela nada faltou da graça da perfeição, da glória que a alma é capaz de conceber em uma criatura, e, ainda mais, que superou na realidade a todo entendimento.
Com a ajuda de seus incondicionais paroquianos, o sr. Loreto e dona Paquita, o Pe. Luís mandou colocar a primeira imagem de Nossa Senhora do Encontro com Deus, em cerâmica policromada, no nicho vazio da abside da majestosa igreja. No dia 31 de maio de 1993, durante uma procissão mariana que encerrava o mês dedicado a Nossa Senhora, abençoou-se com amor filial a imagem chamada a bendizer e a transbordar ternura a todos os seus filhos.
A Visitação da Virgem Maria, memória mariana por excelência que encerra o mês de maio, tradicionalmente dedicado a Maria no hemisfério norte, e, na vila de Quixote, naquele ano de 1993, com um solene cortejo foi testemunha da emblemática entronização da imagem. No coração da primavera de Castela, quando as flores embelezam os campos e o canto das aves alegra a paisagem, irrompe, com sua melodia, a Flor Divina, Maria, sob essa devoção, para colocar-se em Infantes a serviço do Povo de Deus.
Décadas mais tarde, na nação com o maior número de católicos no mundo, o Brasil, na egrégia arquidiocese de Brasília, o cardeal arcebispo Dom Paulo Cezar Costa, designa a festa da Visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel como dia propício para a coroação canônica de Nossa Senhora do Encontro com Deus. E no lugar onde se vive a terna alegria da fé, a fervorosa devoção à Virgem como Padroeira do povo brasileiro, “Nossa Senhora de Aparecida”, se coroará Maria como a que nos leva ao “encontro” com Deus, encontro transformador que se traduz em comunhão com o Deus de nossas vidas, o Deus de nosso coração.
No centro da terra da Mancha, no final do século XX, ganha vida espiritual “A mais bela Dulcineia da Mancha”.
4.5. Aprovação pelo Bispo local
Em todo momento o Pe. Luís foi animado pelo desejo de dar a conhecer e amar a humilde donzela nazarena. Não chegou a calcular as consequências dessa aventura ad divinum. A princípio tratava-se de “mais uma pintura mariana”. Com ingenuidade de filho, de uma boa alma, assim o fez o sacerdote que ama a Igreja e a venera como Mãe em total disponibilidade e abertura.
O Bispo designado quis conhecer o povo e o lugar onde surgiu a imagem. Embora no início não estivesse muito convicto, ao final da visita ficou contente e satisfeito, dando sua aprovação verbal e buscando não provocar os que contemplavam na imagem, devido a uma triste ignorância eclesiástica, um rival às demais devoções daquele povo.
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Padre Rodrigo Molina e a difusão da imagem de Nossa Senhora: rompendo os limites da Mancha
Villanueva de los Infantes acolheu uma epifania silenciosa de Maria: Nossa Senhora do Encontro com Deus. No entanto, como todo povoado espanhol fiel a seu legado cristão e mariano, este possuía uma padroeira. Há séculos invocavam a Mãe de Deus sob o nome de Nossa Senhora de la Antigua, que desfrutava de um santuário próprio. Não imaginava o bom sacerdote que haveria uma disputa entre o povo por causa dos diferentes títulos marianos, tampouco que Nossa Senhora do Encontro com Deus pudesse ultrapassar os muros, robustos e estáticos, de sua paróquia. Rezou e buscou um modo de universalizar essa devoção mariana que outorgava um matiz singular e uma modulação do ofício materno da Virgem Imaculada, Mãe de Todos os Homens.
Em um mundo castigado por egoísmos e tendências divisoras, que dilaceram o coração do homem e dos povos, não seria como uma lufada de ar puro essa presença materna que gerasse encontros, superasse divisões e configurasse a união dos homens em Cristo, para que vivessem o ser filhos no Filho? A unidade tão desejada pelo Concílio Vaticano II (Unitatis redintegratio, Gaudium et spes), e pelo magistério posterior até o Papa Francisco (cultura do encontro), condensou-se sob esta devoção do “encontro” e é o objetivo maternal de Maria na Igreja.
Por meio do casal de amigos, fervorosos difusores da ternura de Maria, o pároco Pe. Luís, entrou em contato com o Pe. Rodrigo Molina, sacerdote jesuíta e fundador de várias associações leigas dentro da Igreja. Este acolheu com alegria e grande abertura a imagem que condensava uma ideia teológica profunda sobre Maria. Aquela que orienta a Jesus, luz e verdade, sem ser autorreferencial, narcisista, tampouco egocêntrica. Longe de um marianocentrismo, nos impulsiona inexoravelmente a Jesus. É eminentemente cristocêntrica, trinitariocêntrica.
5.1. Recebendo de presente as gravuras e pinturas
No coração do Pe. Luis, inquieto como o de Santo Agostinho, com forte impulso evangelizador para comunicar o bem e enaltecer a Maria, Nossa Senhora do Encontro, surge uma poderosa pergunta que o inquieta: a quem recorrer para levar esse rosto mariano de esperança e criador de comunhão ao maior número possível de lugares, a uma humanidade chagada pelos desencontros?
A resposta virá por outro sacerdote. O jesuíta de Astúrias será o “mensageiro providencial” para o Pe. Luís Gallego. Missionário e fundador na América Espanhola, homem apostólico por natureza, de intensa vida interior, asceta e místico, o Pe. Rodrigo Molina seria convidado a acolher e propagar a imagem e, na imagem, o nome e a função mariana por excelência: unir, com Deus e os irmãos.
Quando fizeram a proposta ao Pe. Molina, ele a recebeu com os braços abertos e o coração pleno de gratidão, sentindo-se honrado pela tarefa. O processo teve um primeiro ponto de partida quando o casal de Villanueva, Loreto e Paquita, contou-lhe os preparativos do nascimento dessa devoção.
Sobre isso, escreveu dona Paquita: “O Pe. Molina ficou muito entusiasmado com o nome. Seus lábios esboçaram um sorriso, mesclado de assombro e emoção; seus olhos se iluminaram com um brilho especial e recordamos que suas primeiras palavras foram: ‘Que devoção bíblica! A Sagrada Escritura está cheia de buscas e encontros’.”
O entusiasmo que o Pe. Molina expressou revelava a “chama íntima que ardia em seu coração mariano”.
Continua a escritora e poetisa, narrando as reações do Pe. Molina: “Cada vez mais o encontrávamos emocionado com o tema, do que seguíamos tratando em nossas entrevistas de direção espiritual. ‘Que belo título!’, repetia ele nas conversas. ‘Melhor devoção que essa dificilmente poderíamos encontrar’, acrescentava o sacerdote. Ele enchia a boca ao pronunciá-lo e isso lhe dava uma sensação agradável, um gozo espiritual que nos contagiava.”
Ela conclui esta narrativa dos flashes descritivos da alma do sacerdote dizendo: “Várias vezes nos explicou com toda convicção como todas as devoções estavam incluídas nesta. A Mãe de Jesus sempre leva ao encontro com o Absoluto, com Deus. Busca estabelecer laços de amor entre Deus e os homens, qualquer que seja seu nome: Pilar, Covadonga, Aparecida, Loreto, Lourdes, Fátima, Salette, Guadalupe.”
No entanto, a centelha definitiva no coração do Pe. Molina ocorreu ao segurar a imagem em suas mãos. Agradecido, escreveu uma carta manuscrita ao Pe. Luís em que, dentre outras coisas, testemunhava:
Quanto agradeço aos pequenos quadros de Nossa Senhora do Encontro! Buscar a Deus. “Encontrá-lo eis se O buscares de coração”. É frequente na Palavra de Deus o exortar-nos ao encontro com Deus. E como Ela é a “ajuda adequada” do Senhor, melhor título do que o de Nossa Senhora do Encontro com Deus dificilmente poderemos encontrar. (…) Nela encontramos a Deus.
O Pe. Luís lhe responde:
Basta para mim, padre, que acolham com carinho a esta devoção… mas, perdoe-me pelo meu atrevimento: se o pai da família (espiritual) quiser recebê-la como especial protetora, quiser que seus filhos e filhas invoquem a Maria sob a devoção de Virgem do Encontro…, eu poderia cantar: “Agora, Senhor, podes deixar teu servo ir em paz”, como na oração de Simeão, o Nunc Dimittis, ao ter a completa segurança de que “o tesouro está em suas mãos, em boníssimas mãos”.
5.2. Padre Molina agradece e convida para visitar a casa de Formação de sua Obra
Agradecido pela generosidade do Pe. Luís, o Pe. Molina o convida para uma visita à Casa de Tarancón (Cuenca), a uma hora de Madrid, para mostrar a seus filhos espirituais a devoção e pedir a opinião do “povo de Deus”. Entre outras coisas, o Padre, tocado profundamente em sua alma pelo convite do bom sacerdote, escreve: “Essa bela imagem que tem o Menino em seus braços e move à piedade (…). Que olha os homens discretamente, que é bonita e nos leva a rezar”. Presentearam, então, com uma imagem o Pe. Molina, que responde: “estamos pensando que talvez o senhor pudesse presidir o nosso primeiro momento contemplativo”. Pouco depois, acrescenta: “E dar esse título, de Nossa Senhora do Encontro, a locais de nossa obra na Espanha e na América. (…) Desde agora a invocamos com esse formoso título. Nossa Senhora do Encontro, da convergência entre Deus e o homem, pois por meio dela entrou Deus no mundo”. Um santo que viveu nesse povoado e que teve seu nome unido ao do local, Santo Tomás de Vilanova (dos Infantes), arcebispo de Valência, assim escreveu: “Porta feliz pela qual entrou Deus no mundo e entra o homem em Deus. Porta do céu e porta do mundo. Porta de Deus e porta do homem. Por essa porta o Senhor entra no mundo e o homem entra no céu”.
Sob essa devoção, compôs o pároco uma oração: “Minha Senhora e minha Mãe. Mostra que és minha Mãe. Quando termine minha vida neste mundo, prepara meu encontro com Jesus; leva-me por tuas mãos ao Pai; alcança-me do Espírito Santo a eterna salvação. E, assim, junto com todos os santos, possa gozar sempre de sua companhia, tendo a ti como Mãe. Amém”.
O Pe. Molina consolidou sua plena aceitação à devoção. Entretanto, como homem prudente e buscando ouvir o parecer do Espírito Santo que anima a comunidade que reza e vive em comunhão, quis presentear a comunidade com a imagem e explicar seu nome e significado antes. Ao ouvir a opinião de todos, veio a resposta unânime: aquele povo sensível receberia com agrado e alegria a essa devoção. E sentenciou, olhando para o Pe. Luís: “Pe. Luís, é o Espírito Santo quem fala”.
5.3. A comunidade do Pe. Molina acolhe o título e a imagem de Maria
Ao finalizar a reunião de consulta ao povo de Deus, consolidou-se, ao final, pelo Pe. Luís, o significado concreto da imagem:
Maria prepara o nosso encontro com Jesus (…), o último encontro, o que teremos ao final de nossa vida, quando levados de nossa casa neste mundo nos encontremos com Deus e, (essencialmente), (…) Maria prepara a cada dia o nosso encontro com Deus e com os irmãos. Assim sempre senti, tal como muitas vezes tenho escutado: “Por Maria vamos a Jesus e, por Jesus, ao Pai, no Espírito Santo”.
5.4. Delineia-se a imagem definitiva do quadro em junho de 1996
Depois de um ano procurando um artista que pudesse fazer acabamentos em óleo na imagem de cerâmica, surgiu um jovem pintor chamado Pedro Miguel Pérez Villegas, que aperfeiçoou aquela que se tornou a pintura definitiva sonhada pelo Pe. Molina.
Ao jovem pintor se encomendou uma pintura “que movesse à piedade, que tenha o Menino em suas mãos, que olhe para os homens, que seja bonita… que nos leve a rezar e que tenha como legenda ‘Maria, mostra que és minha Mãe’; quem apenas ler essa frase, que já seja uma oração.” E a mensagem da pintura deveria ser: “Ao nos olhar, Maria nos diz: Este é o meu Filho; vos apresento meu Filho; eu os levarei a Ele e preparo sempre seu encontro com Ele”. Após várias reuniões com o pintor, no decorrer do projeto, conseguiram determinar, um a um, todos os detalhes até que se obtivesse a obra desejada.
A viagem seguinte foi à Extremadura, a terra do conquistador Francisco Pizarro, em que o Pe. Molina quis que a sede de Capellanías, dedicada ao ambiente contemplativo de sua Obra, tivesse Nossa Senhora do Encontro com Deus como padroeira.
Maria, mulher de contemplação por excelência, converter-se-ia na Mãe e protetora daqueles que se dedicariam à “melhor parte”, como Maria de Betânia aos pés de Jesus. Foi o lugar escolhido como berço deste sinal definitivo da obra do Pe. Molina, que, naquele momento, se chamava Lumen Dei.
5.5. A Mãe de Deus toma posse de seu feudo
Chegou o dia escolhido por Deus para a entronização da imagem de Nossa Senhora do Encontro com Deus. No dia 24 de junho de 1996, ela tornou-se padroeira, com grande destaque, mas sempre com singeleza (sendo o Pe. Molina sempre muito amigo da simplicidade e da humildade) no ambiente contemplativo, com o nome de Mosteiro de Nossa Senhora do Encontro com Deus.
Este lugar buscaria assemelhar-se ao “Gólgota com Maria”, “à sombra de Maria, incorporados à Maria, para nela termos o encontro com Deus”. Encontro com Deus que necessariamente conduz ao encontro com o irmão, o homem que mendiga o amor para o qual foi criado. Em geral, o encontro com todo homem, em todas as suas dimensões, e o encontro com cada homem, de modo singular.
“Busca a Deus no pobre e tu o encontrarás”, escrevia o Pe. Molina. Para ele, era impossível conceber uma união com Deus que não proporcionasse uma união com os irmãos. Sempre construindo pontes até os pobres, que são um reflexo do rosto de Jesus sem acréscimos ou pompas. A Virgem Maria, Nossa Senhora do Encontro com Deus, garantiria os encontros. Nunca uma vida contemplativa é para isolar-se, mas para que, unidos ao Amor, o Deus de coração misericordioso, se reparta este Amor a todos os homens.
A humilde capela que abriga o quadro original de Nossa Senhora do Encontro com Deus em sua sede na Extremadura recebeu a visita de milhares de pessoas, alguns bispos e núncios apostólicos.
5.6. «Mostra que és minha Mãe»
O quadro da Virgem exibe, aos pés de Maria, uma legenda: “Maria, mostra que és minha mãe”. Ela tem origem no famoso hino Ave Maris Stella, cujo autor é desconhecido, mas muito popular na Idade Média.
Qual era o objetivo dessa legenda que quase funcionaria como um brasão? Responde o Pe. Luís a uma pergunta do Pe. Molina: “Cada vez (…) que, fixando-nos no quadro, a leiamos, estaremos fazendo não somente uma afirmação da maternidade de Maria, mas uma verdadeira oração pessoal: “Maria, mostra que és minha Mãe”.
- Iconografia
A iconografia de Nossa Senhora do Encontro com Deus carrega elementos teológicos fundamentais. A Virgem Maria traz o Menino Jesus em seus braços, oferecendo-o com olhar materno e suave aos homens. A presença das coroas destaca a realeza divina do Filho e a realeza derivada da Mãe. Os ornamentos florais e os ramos ao redor simbolizam a beleza da criação renovada pela graça da Redenção. Toda a composição convida a alma à oração, ao recolhimento e à busca constante de Deus.
- A devoção à Nossa Senhora do Encontro com Deus se estende por toda a Obra do Padre Molina
7.1. Santuário de Nossa Senhora do Encontro com Deus, Orocovis (Porto Rico)
Em 28 de março de 2000, o bispo de Ponce, cidade de Porto Rico, Monsenhor Fremiot Torres Oliver, deu sua aprovação ao Santuário de Nossa Senhora do Encontro com Deus. Desde então, o santuário se dedicaria à promoção do culto à Virgem Maria e estaria aos cuidados de uma comunidade feminina contemplativa.
A inauguração oficial ocorreu em 20 de maio desse mesmo ano, pelo Bispo Auxiliar da Diocese, Monsenhor Ricardo Suriñach. Nesse mesmo ano ele seria nomeado Bispo Titular da Diocese.
A construção do santuário contou com a ativa colaboração do ex-governador de Porto Rico, Rafael Hernández Colón e sua esposa Lila.
7.2. Nossa Senhora do Encontro com Deus no Brasil
Os filhos do Padre Molina chegaram ao Brasil em 2004 para assumir o seu apostolado em Brasília em uma área hoje denominada “Cidade Estrutural”. Outrora um aterro sanitário, se constituía então de casebres com pessoas deslocadas de diversas regiões do Brasil para a capital, sendo empreendedores de baixa renda.
A princípio “área pastoral” de uma paróquia urbana do “Cruzeiro”, não demorou a se tornar, em 29 de maio de 2005, Quase-paróquia, e dois anos depois, em 29 de julho de 2007, Paróquia, com a aceitação, pelo arcebispo da época, do nome “Nossa Senhora do Encontro com Deus”, pretendendo-se com tal designação a ser uma paróquia de encontros no Coração Imaculado de Maria.
Com o esforço e o trabalho dos paroquianos, de seus párocos e religiosas, a paróquia foi crescendo sob o olhar de Maria. A Santíssima Virgem foi testemunha privilegiada do progresso espiritual de muitos paroquianos, ao mesmo tempo em que se tornava perceptível sua melhoria também no seu dia a dia.
A isso contribuíram as práticas de Adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento; os Retiros espirituais mensais; a Assistência social realizada pelas irmãs da Prodein: o trabalho pró-vida com a Casa Berçário, o trabalho educativo com a Creche e os projetos de Reforço escolar. Ainda, os edifícios: Igreja Paroquial, Centro Social e Catequético e Capela Santa Teresinha do Menino Jesus (em construção). Por fim, as diversas atividades pastorais, religiosas e culturais.
O apoio constante dos arcebispos de Brasília, com especial menção às frequentes visitas do Em.mo Rv.mo Cardeal D. Paulo Cezar Costa – incluindo sua primeira Missa como Cardeal – foi de auxílio essencial ao êxito do labor pastoral paroquial desde então.
Neste sentido, a coroa tecida para a Mãe de Deus quer representar a feliz realeza da donzela de Nazaré (cf. Fl 4, 1), sendo os múltiplos “encontros” com Deus e entre irmãos vistos como bênçãos celestiais por sua intercessão maternal. Com o que almejamos “Que Nossa Senhora do Encontro com Deus reine no coração de todas as famílias paroquiais”.
Nossa Senhora foi Mãe do Rei, e como Mãe é Rainha dos corações, das almas e de toda criação. E com esta comunhão “reinante”, torna-se transparente a real fraternidade de seus filhos em Cristo Jesus, seu Filho e nosso Senhor.
7.3. Por toda a América Latina
Do quadro a óleo de Pedro Miguel Pérez Villegas foram feitas incontáveis cópias e reproduções fotográficas da imagem, para as sedes da obra do Pe. Molina tanto na Espanha quanto na América. Em alguns casos, de tamanho original, outras vezes, de dimensões variadas, segundo as circunstâncias.
Sua doce figura aparece bendizendo as realizações da Família Espiritual do Pe. Molina: Centros de Espiritualidade, Colégios, Creches, Meios de Comunicação Social (Imprensa, Rádio e Televisão), Casas de Idosos, Restaurantes Escolares, Hospitais etc.
Uma menção especial deve ser dada ao Reinado de Maria, movimento apostólico que procura expandir, a nível popular, a devoção à Virgem Santíssima.
- Primeiro soneto à Virgem do Encontro
Soneto de Paquita Sánchez em português
Ao contemplar o Menino em teu regaço
Sinto, Mãe, vindo a mim, o teu amor mais forte
Não temo nem a própria morte:
Com Jesus me levas em teus braços
Feliz instante quando o “sim” lhe deste
Ao anúncio de um Deus apaixonado
Em ventre virginal sendo encerrado
Com Jesus, a todos concebeste
Doravante, o homem já irmão
Distância, divisão, tampouco se divisa:
A todos levas pela mão
E a Teu Filho guia-nos cada dia
Em divina verte a humana criação
Ó, Virgem do Encontro, Mãe querida!
- Padre Rodrigo Molina: cantor de Nossa Senhora do Encontro com Deus
O título de Nossa Senhora do Encontro com Deus ficou guardado no coração do Pe. Rodrigo Molina, fervoroso filho de Maria e ativo propagador de sua glória. Cativado pelas redes de seu encanto sobrenatural, ele não poderia dissimular o fogo mariano que o consumia, de modo que, aonde quer que fosse, Nossa Senhora do Encontro com Deus era a bandeira para levar a Cristo. Assim o manifestou em muitas ocasiões:
Santa Maria é a Rainha da natureza e da graça: é formosa, tem um encantador e sobrenatural esplendor, é uma perfeita criação divina. O Espírito Santo, o Deus da Comunicação, do dom formoso, a fez a sua semelhança, comunicando a ela seu mais precioso e íntimo dom, o dom da atração, o dom de agradar, de gostar de se entregar e dar, o dom de aproximar, criar proximidade, e o dom da generosidade (…) Por isso é a Nossa Senhora do Encontro. Que a amemos. Ela cria proximidade entre Deus e eu.
Desde o início o Pe. Molina já ensinava que Maria era o lugar do encontro com Deus:
Maria é o guia, o guia para Deus. “A Deus ninguém nunca viu”. Maria já está vendo a Deus. “Ninguém conhece o Pai senão o Filho”. Ninguém conhece a Jesus senão a Mãe. Ter uma Mãe Imaculada é um tesouro nunca louvado o bastante. Coloca-te sob a direção de Maria: o caminho que ela te aponta é um caminho reto e seguro para o encontro com Deus.
“E, entrando na casa, encontraram Jesus com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se, todos o adoraram e, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra” (Mt 2, 11). A Jesus, o encontramos em Maria; a Deus, O encontramos em sua Mãe. Lei universal: todo homem vem por uma mulher; todo nascido tem uma mãe. Deus se injeta, enraíza-se no mundo por uma mulher e o homem se injeta, enraíza-se em Deus por uma mulher. E essa mulher é Maria.
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PARTE TEOLÓGICA
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Teologia de Nossa Senhora do Encontro com Deus
O que queremos dizer quando afirmamos que Maria nos leva ao Encontro com Deus?
Pretendemos afirmar que a Virgem Maria facilita a nossa comunhão pessoal com Deus. Essa comunicação com Deus Pai, Filho e Espírito Santo redunda em nossa comunhão com nossos irmãos, com nosso próximo. Desse Deus intimior intimo meo, uno-me aos homens formando a família de Deus.
A palavra “encontro” é determinante para conhecer o alcance deste título mariano. Não se trata de uma mera coincidência no lugar de dois sujeitos. Algo mais substancial está em jogo. Quando o Papa Bento XVI ensaiou uma reflexão sobre qual seria a essência do ser cristão, ele nos transportou a este panorama: Deus se faz encontro e define nosso ser cristão em aceitar esse encontro que Ele oferece, objetivo de toda a automanifestação divina: “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”.
A função materna de Maria se orienta a criar esse clima de fraternidade sentida e interiorizada com Jesus. São João Paulo II e o Papa Francisco seguem essa mesma corrente sobre o “encontro”.
Vislumbramos que o conceito de “encontro” aqui equivale à comunhão, a relação interpessoal entre um eu e um tu. Esta noção foi sendo desenvolvida desde o início do século XX, principalmente, a partir da Segunda Guerra Mundial. Esta conflagração foi de dimensões avassaladoras nunca vistas até então. Era preciso reagir diante de uma ciclópica máquina de destruição. A soberba e seu trágico ímpeto devorador deveria ceder lugar ao encontro, à comunhão entre as pessoas.
Em vários setores do saber a categoria do encontro com Deus foi adquirindo status de cidadania. Citamos como exemplos a Fenomenologia da Religião, Teologia moral, Teologia da revelação, Antropologia teológica e outros. Em geral, penetrou o mundo da reflexão teológica. No entanto, nas disciplinas filosóficas, e, principalmente, em um setor do pensamento filosófico, foi que teve origem e se enraizou a categoria do “encontro”, com o adjetivo específico do “encontro com Deus”.
Com efeito, o “encontro com Deus” enquanto sintagma categórico nasceu no âmbito da Filosofia do Diálogo ou também Filosofia do Encontro. Destacam-se como principais filósofos do diálogo, na primeira metade do século XX, Ferdinand Ebner, católico; Franz Rosenzweig e Martin Buber, que despontará como seu mais significativo representante. Os dois últimos da religião judaica, piedosos.
João Paulo II, que leu estes autores, dará primazia à relação interpessoal, sempre salvaguardando a autonomia da pessoa com “uma prioridade ontológica do eu sobre o tu”.
Vemos que ele defende a pessoa como ser individual e irredutível, e uma vez tendo isso assentado, proporia a participação social e intersubjetiva, ou seja, a relação como elemento constitutivo essencial da pessoa. “A correlação dinâmica da ação com a pessoa, que procede do fato de que as ações podem ser realizadas por pessoas junto com outras pessoas”.
Bento XVI bebeu nas fontes do Personalismo alemão que surgia quando ele era estudante de teologia. Destacamos de sua biografia autorizada o seguinte:
Do professor Steinbüchel tomamos: “A realidade de Deus pessoal, experimentada na fé”, “(…) é o fundamento mais profundo, religioso, de mudança radical do pensamento sistemático, do giro de pensamento sobre a existência humana”. Sobre a existência do homem como “o que é interpelado e requerido por um Deus pessoal, e de quem Deus espera uma resposta, o giro pessoal mais profundo até Ele, até este Deus”.
Tendo lido Buber, compartilhou algumas de suas teses, sobretudo a dimensão dialógica, pois com ela:
(Buber) “habilitou para o diálogo com o tu do próximo e, em última instância, para o diálogo com Deus”. Ratzinger compartilha o enfoque do filósofo judeu da religião na medida em que recorda sem cessar que Deus sai ao encontro do ser humano não como uma definição abstrata, mas como um “tu”. Aceita o homem, comunica-se com ele, seja na oração, seja na liturgia. Também neste sentido é possível que o místico judeu tenha postulado que: “A melhor maneira de falar de Deus é louvá-lo”.
O Papa Francisco destaca mais a “cultura do Encontro”. Encontro entre irmãos que, sabemos implicitamente, procedem de Deus (uma fraternidade que procede de Deus). Ele traz uma descrição precisa do que fundamenta a “cultura do Encontro”:
Não se trata simplesmente de ver, senão de mirar; não se trata simplesmente de ouvir, senão de escutar; não basta se encontrar ou passar ao lado das pessoas, mas se deter e se comprometer com elas nas coisas que realmente importam (cf. Fl 1, 10). Também é estimulante, porque compartilhamos nosso caminho com os demais, nos apoiamos mutuamente na busca pela verdade e nos esforçamos para ter uma rede de relações que faça de nossa vida em comum “uma verdadeira experiência de fraternidade, uma caravana de solidariedade, uma santa peregrinação”.
É uma mudança que aponta em primeiro lugar à própria Igreja, o que entre os cristãos se chama “conversão”. Contudo, chama também ao “encontro do coração das pessoas”, para desde lá alcançar as famílias, as sociedades, os países e até a ordem global, na justiça e na paz, na solidariedade e na misericórdia.
O próprio Papa resume dando vida e cor evangélicas ao conceito abstrato, que define uma realidade tangível:
Um discurso que parece atual, inclusive aos homens de hoje, demasiadamente “acostumados a uma cultura da indiferença” e, por isso, necessitados de “trabalhar e pedir a graça de fazer a cultura do encontro, deste encontro fecundo, deste encontro que restitui a cada pessoa a própria dignidade de filho de Deus, a dignidade de vivente”. Nós “estamos acostumados a esta indiferença”, ressalta o Papa, seja “quando vemos as calamidades deste mundo, seja diante das pequenas coisas”. Ele se limita a dizer: “Mas, que pena, pobre gente, quanto sofrem” para seguir tudo corretamente depois. Destarte, o encontro é outra coisa, como explicou Francisco: “Se eu não olho – e não é suficiente ver, mas olhar -, se não paro e não olho, se não toco, se não falo, não posso ter um encontro e não posso contribuir com a construção de uma cultura do encontro”.
Detendo-se em particular no episódio da viúva de Naim, narrado no Evangelho de Lucas (7, 11-17), o Pontífice sublinhou como “a Palavra de Deus do dia” falasse de “um encontro. Há um encontro entre as pessoas, um encontro entre as pessoas que estavam na rua”. E esta, comentou, “é uma coisa pouco habitual”. Precisamente, “quando nós vamos pelas ruas, cada um pensa em si mesmo: vê, mas não olha; ouve, mas não escuta”; quer dizer, cada um segue sua própria direção. E a consequência é que as “pessoas se cruzam com elas, mas não se encontram”. Porque, esclareceu, afastando todo tipo de equívoco, “o encontro é outra coisa”, e é precisamente “o que o Evangelho de hoje nos anuncia: um encontro entre um homem e uma mulher, entre um filho único vivo e um filho único morto; entre uma multidão feliz, porque havia encontrado Jesus e lhe seguia, e um grupo de gente que, chorando, acompanhava aquela mulher”, que havia se tornado viúva e iria enterrar seu filho único.
- A Sagrada Escritura e o Encontro com Deus
O Livro Sagrado é uma epifania de inumeráveis encontros de Deus com o homem. Na criação, como encontro silencioso e fundador, Deus inaugura esta constelação de contatos com sua criatura, iniciado com os “passeios de Deus” pelo Jardim do Éden e continuado com as sucessivas alianças: com Noé (Gn 9, 8-17), com Abraão (Gn 15, 18; 17, 1-8), com Moisés (Ex 3, 6, 19 e 24), com Davi (2 Sam 23, 1-7), como momentos máximos de seu desejo íntimo de firmar um trato de amizade permanente. Na plenitude dos tempos, chega o encontro dos encontros da Encarnação do Senhor. Ali Deus se fez homem, assumiu nossa condição humana e estabeleceu para sempre um vínculo inquebrantável com a humanidade. Este compromisso do Verbo encarnado, que é o compromisso de toda a Trindade, tomará sua forma dramática e redentora definitiva no mistério Pascal.
Pode-se afirmar que exegetas e teólogos convergem ao interpretar toda a revelação bíblica como um encontro entre o Deus vivo e o homem. E mais, a ideia e o evento da aliança é o tema que subjaz em todos os encontros, por ser o tema central que perpassa e unifica a Bíblia. Produzem-se em um contexto nupcial entre Deus e seu povo, formalizado com a conhecida fórmula da aliança: “Tu és o meu povo e eu sou o teu Deus” (Ex 36, 28).
Esse mesmo Deus que “se deixa encontrar” sai ao encontro do homem (DV 21, CIC 104; 309) e se abre ao homem em uma oferta gratuita. Essa oferta pode ser vislumbrada, por exemplo, nos profetas como Ezequiel (16); no profeta Oseias: “Me desposarei contigo para sempre, me desposarei contigo na Justiça e no Direito, em misericórdia e ternura; me desposarei contigo em fidelidade e conhecerás o Senhor” (Os 2, 1ss); e também:
“Com laços humanos os atrai, com vínculos de amor. Fui para eles como quem leva seus filhos às costas. Inclinei-me para ele para lhe dar de comer” (Os 11, 4). Mais ainda, o próprio Deus suscita sua busca e convida, respeitando a liberdade, o homem a formar com ele a aliança: “Inclinai vosso ouvido, vinde a mim; escutai-me e vivereis. Selarei convosco uma aliança perpétua, (segundo) as misericordiosas promessas feitas a Davi (…). Buscai ao Senhor enquanto se deixa encontrar, invocai-o enquanto está perto” (Is 55, 3-6). Também em Jeremias: “Procurai e me encontrareis, se me procurardes de todo o coração. Me deixarei encontrar, e mudarei a vossa sorte” (Jr 29, 12-13); e “Já chegou a hora, oráculo do Senhor, em que farei com a casa de Israel e a casa de Judá uma aliança nova (…). Esta será a aliança que farei com eles depois daqueles dias – oráculo do Senhor -; inscreverei minha lei em seu interior e em seus corações eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Jr 31, 31-33).
Comprovamos que nestes “encontros” que reproduzem a aliança entre Deus e o homem, se verifica um diálogo com o Tu, que fala conosco. A chamada dimensão dialógica, descrita por C. Westermann, que afirmou que a Palavra de Deus, antes de mais nada, é um “acontecimento que se cria entre quem a pronuncia e quem a escuta”. Para S. de Fiores, os três elementos fundamentais da teologia do AT são: História (Deus que atua), palavra (Deus que fala) e respostas (reação do homem com palavras e ações). Assim, resulta que as “ações e palavras de Deus e as palavras e ações do homem como resposta, são os elementos que constituem a constante estrutura fundamental dessa história”. Ambas confluem para a mesma categoria de “encontro” que “determina toda a história de Deus com Israel e dá início a um acontecimento dialógico entre Deus e seu povo”. Este “encontro” constitui o ato que funda a história de Israel.
Uma comunicação especial entre YHWH e seu povo se produzia no êxodo quando a comunicação com Deus se realizava na Tenda do Encontro (Ex 33, 7-11). YHWH falava com Moisés e a misteriosa nuvem descia até a entrada da tenda (v. 9ss). O diálogo continha características que denotavam proximidade, não distância, pois YHWH falava “com Moisés face a face como fala um homem com seu amigo” (v. 11). No capítulo 40, 35 (cf. Nm 9, 18-22), volta a aparecer a nuvem do Senhor, que cobriu a Tenda do Encontro e a glória de YHWH preenchia o Tabernáculo, a Morada. Esta imagem, cheia de realismo, da Tenda do Encontro, sugere a Presença de Deus (Shekinah) no meio do Povo; trata-se do lugar, nesta etapa do deserto, destinado a firmar um sublime e pessoal encontro entre Deus e os homens.
Se reunirmos todos os termos, de Tenda do Encontro, Morada (miskan), Glória (kabod), Nuvem que desce, se reforça a ideia de que esse Deus busca e propicia o encontro com o homem.
Na linguagem sóbria do culto a Deus que está se desenvolvendo no deserto, não podemos negar que subjaz com força a comunicação humano-divina. A Tenda também se une, no mesmo contexto cultural, com a Arca da Aliança, como testemunho da presença de Deus. O caráter provisório e indelével da tenda, no tempo do nomadismo, desembocará no Templo, lugar mais sólido da presença divina (1 Re 8, 10-11; Ez 43, 2ss). Se aproxima o momento em que cobrarão profundidade insuspeita aos oráculos proféticos de Deus conosco (Is 7, 14), e Deus no meio de nós (Sf 3, 15-17).
Teólogos vislumbraram no episódio do Pentateuco da nuvem que desce sobre a Tenda do Encontro (Ex 40, 35) uma prefiguração do que aconteceria na Anunciação do Senhor. O Arcanjo Gabriel profetiza que “o poder do Altíssimo cobrirá (a Maria) com sua sombra” (Lc 1, 35). E o prólogo de São João deixou esculpida para a eternidade a frase que faz referência à “habitação” de Deus entre os homens, edificando a ponte que sustentará a comunicação do Eterno com sua criatura: “o Verbo se fez carne e habitou (Tenda) entre nós” (Jo 1, 14). “O Verbo que ‘estava junto a Deus’ e que era Deus, fez-se verdadeiro homem, fez-se criatura espaço-temporal, visível e palpável”.
É a Encarnação do Filho de Deus que preenche, sem deixar vazios, o conceito de “encontro”. O Verbo de Deus será a plena presença de Deus entre os povos (cf. Ap 7, 15; Jo 12, 12; 13, 6). Nele resplandece a glória de YHWH e é o esplendor da glória do Pai (Hb 1, 3).
A Encarnação é o “summum misterium”, o magno e soberano mistério (LG 65). E a fé na Encarnação, como resumo da fé em Cristo bíblico, constitui o evento central da História da Salvação do homem em Cristo. Angelo Amato, a respeito disso, nos brinda com frases iluminadas em seu ensaio de cristologia dogmático-eclesial. A Encarnação, afirma, constitui o vértice insuperável e o cumprimento absoluto da história da salvação. Efetivamente, Jesus é a Palavra definitiva de Deus à humanidade (Hb 1, 2), único mediador entre Deus e os homens (1 Ti 2, 5; Hb 8, 6; 9, 15; 12, 24), a fonte de toda salvação presente e futura (At 4, 12): “Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4, 12). Qualificou-lhe como a “obra dos séculos”, como disse o Papa Paulo VI, “o acontecimento fundamental na economia da salvação”, “que mudou a história do mundo”. A Encarnação não é um fato passado e distante, mas se comunica hoje a nós, por meio de um encontro humano que nos contagia com sua atualidade sempre viva.
- Maria, coração onde o Verbo se fez carne, onde Deus faz seu encontro com o homem
O lugar de Maria na Encarnação do Verbo é essencial, por vontade divina. Assim o atesta a Revelação:
Deus envia seu Filho, nascido de mulher (Gal 4, 4), Mãe do Senhor (Lc 1, 43), Mãe de Jesus, chamado Cristo (Mt 1, 16), Mãe de Jesus (Jo 2, 1-3). “Maria de Nazaré é indispensável para a Encarnação do Filho de Deus, enquanto Mãe que o concebe por obra do Espírito Santo e o dá à luz. Sem Maria não haveria Jesus. (…) Sem Maria o cristianismo se arrisca a tornar-se gnosticismo ou cair em um docetismo [doutrina herética que acreditava que o corpo de Jesus era uma ilusão e que a crucificação fora aparente]”. Maria aporta o equilíbrio da Cristologia, como atesta o Concílio de Éfeso. Sua maternidade da humanidade de Cristo, e, portanto, da Pessoa divina (que sustenta a humanidade), pertence ao tesouro da fé.
De algum modo Maria de Nazaré colabora, em seu sim a Deus na Anunciação com o encontro decisivo, e princípio da nova economia da salvação, carrega sobre si a responsabilidade (do respondeo) para devolver a Deus o Amor e a confiança que ela recebeu dEle.
- O processo do Encontro com Deus
O conceito de “encontro” ganha status de cidadania na teologia católica por meio de René Latourelle, que se serviu dele para aprofundar a compreensão do binômio fé-revelação, consideradas como um diálogo interpessoal entre Deus e o homem.
René Latourelle expõe, em sua reflexão teológica da revelação, o conceito de “encontro” aplicado à mesma revelação:
“A Palavra – diz – é uma delegação existencial, um eu em busca de um tu, carregada com a existência daquele que a pronuncia. A palavra se faz realidade no encontro com um tu”. Que esse encontro se traduza em “reciprocidade, comunhão, compromisso mútuo”. “A reciprocidade é a condução do encontro efetivo (…). A reciprocidade do encontro de amor (…) é fruto de uma revelação e de um dom”.
“Este encontro que quer ser um diálogo no amor” não percorre as camadas mais brutais e íntimas, senão que “o encontramos em um nível infinitamente superior da revelação e da fé.” Assegura com firmeza que “somente na fé se realiza verdadeira e plenamente o encontro de Deus com o homem. Somente então a palavra do Deus vivo é aceita e reconhecida pelo homem (…). Deus, por sua palavra, convida o homem a uma comunhão de amizade; e o homem, pela fé, responde ao chamado de Deus. A fé, primeiro encontro do homem com Deus, equivale ao sorriso de amizade no diálogo humano”, e conclui: “Deus e o homem se encontram e este encontro se desenvolve em comunhão de vida”.
Inclui o matiz da “interpersonalidade” como nota essencial na correlação revelação-fé. “O principal, observa Santo Tomás de Aquino, e o que no ato de fé tem valor de fim, é a pessoa a cuja palavra adere”. Outro trecho que traz luz sobre esta reflexão:
“A fé é o encontro com o Deus pessoal em sua palavra. (…) A fé inicia no diálogo o encontro que culminará na visitação. Mas já é presença misteriosa de Deus, relação viva do homem com Deus, de uma pessoa com outra”. Assim é como descrevem São Paulo e São João a fé: como atitude global de todo o homem que responde às iniciativas de Deus, como totalidade compacta na qual o conhecimento e o amor formam uma única coisa no impulso espiritual da pessoa. A fé que se realiza pela caridade (Gl 5, 6) é conhecimento e compromisso de toda pessoa por inteiro: aceita toda a verdade de Deus e dá a Deus todo o coração humano”.
Passa, então, a enumerar algumas características essenciais do encontro levado a cabo pela fé:
Primeira: Deus tem sempre a iniciativa. Sua infinita transcendência é também infinita condescendência. Todo encontro salvífico é nEle anterioridade. “Não que nós tenhamos amado a Deus, mas que Ele nos amou primeiro” (1 Jo 4, 10).
Passa a abordar a Segunda característica (…): e a coloca na “gravidade da opção que exige. (…) Trata-se de apostar tudo, vida e morte, martírio sangrento ou martírio humilde e paciente de toda a vida; trata-se estritamente de ser ou não ser. A fé é, portanto, uma decisão de escolha por Deus (…). Um compromisso tal é um desenraizamento do humano e um enraizamento em Cristo (Ef 3, 17). (…) É necessário que o amor nos seduza”.
A revelação como encontro se converte em aceitação, diálogo e reciprocidade, graças à sedução de amor expressada em Cristo e levada à plenitude pelo Espírito que transforma o coração rebelde do homem em coração filial.
Por fim, a:
Terceira característica (…): a profundidade da comunhão estabelecida entre o homem e Deus. O que recebe a palavra de Cristo e permanece nela passa da condição de servo à de filho e amigo (Gl 4, 4-6; Rm 8, 15; Jo 15, 15); participa no conhecimento e amor com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Assim, pois, considerada como palavra, testemunho ou como encontro, a revelação nos deixa escutar sempre sua nota fundamental: Deus é amor (1 Jo 4, 8-10) e sua palavra é palavra de amor.
Nesta poderosa ideia o Papa João Paulo II, em sua Encíclica Fides et Ratio, já enfatizava:
Na origem de nosso ser como crentes há um encontro, único em seu gênero, em que se manifesta um mistério oculto nos séculos (cf. 1 Co 2, 7; Rm 16, 25-26), mas agora revelado. “O Senhor quis, com sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e manifestar o mistério de sua vontade (cf. Ef 1, 9): por Cristo, a Palavra feita carne, e com o Espírito Santo, podem os homens chegar ao Pai e participar da natureza divina”. Esta é uma iniciativa totalmente gratuita, que vem de Deus para alcançar a humanidade e salvá-la. Deus, como fonte de amor, deseja dar-se a conhecer, e o conhecimento que o homem tem dele culmina em qualquer outro conhecimento verdadeiro sobre o sentido da própria existência que sua mente é capaz de alcançar.
Trata-se de tomar consciência, acolher responsavelmente o mistério da Encarnação como o desejo de Deus de unir-se a cada homem:
O Filho de Deus, com sua encarnação, uniu-se de certo modo com todos os homens. Tudo o que Cristo viveu faz com que possamos vivê-lo nEle e que Ele o viva em nós. (…) Somos chamados a não ser mais do que uma só coisa com Ele; faz-nos comungar enquanto membros de seu Corpo em que Ele viveu em sua carne por nós e como modelo nosso (CIC 521).
E nesse encontro com Jesus, gera-se uma união inquebrantável, perpétua:
O (mártir) sabe que encontrou no encontro com Jesus a verdade sobre sua vida e ninguém poderá arrebatar essa certeza. Nem o sofrimento, nem a morte violenta o farão apartar-se da adesão à verdade que descobriu em seu encontro com Cristo.
Uma primeira observação nos faz ver que nosso Criador e Pai proativamente busca estabelecer uma relação pessoal com o homem. Relação que se constrói em forma de diálogo com dois sujeitos: o Deus que fala e o homem que responde. É a dinâmica do Amor supremo e frontal, que chama para um encontro, sem violar a liberdade do homem. Trata-se da autocomunicação divina que dá o salto abismal da eternidade à história, para fazer-se Palavra revelada e chegar à comunhão com sua criatura racional. Mais ainda, uma tranquila reflexão nos introduz na amplitude do encontro que transcende o mero indivíduo e chega a todos os membros da comunidade. Não é um encontro exclusivo de um só, mas aberto à pluralidade dos homens envolvidos em uma multirrelação de cada pessoa com as demais. O mesmo encontro, ou melhor, desencontro, com Adão e Eva (Gn 3), terá uma repercussão cósmica. Como também tiveram os encontros com Abraão, Moisés, Davi…
Em resumo, a ação pessoal de Deus na história de cada homem e de todos os homens arremata esta primeira descrição do encontro. Deus busca o diálogo com o homem, para provocar nele uma resposta livre e chegar a uma comunhão-comunidade com ele.
Se nos atermos à semântica do conceito “encontro”, podemos permanecer à margem ou na periferia da realidade que se quer definir. Estas citações, que coincidem em um ponto espaço-temporal (significado imediato da palavra “encontro”), estariam reduzidas a uma mera concorrência entre duas pessoas, detidas no nível superficial, periférico, sem que impulsionassem um ir mais adiante, adentrando em uma comunhão interpessoal? Ou melhor, estes “encontros” revelariam e matizariam um desejo profundo do coração de Deus que busca sua criatura? O homem é somente o sujeito passivo deste encontro ou possui um status de pessoa que ocupa um lugar ativo, respaldando e colaborando com a iniciativa divina? É um encontro bilateral que responde e reproduz a aliança como categoria interpessoal, o evento de comunhão entre Deus e o povo na história?
- Maria, a Virgem que nos leva ao Encontro com Deus
Como temos dito, o desejo mais radical de Deus é o de se encontrar com o homem, de estabelecer com a criatura, fruto de suas mãos, uma comunhão pessoal permanente. Um intercâmbio de amor. E esse desejo se traduz em um convite, um diálogo que adota um relevo único, transcendente, no encontro, uma vez mais, de Deus através do Arcanjo São Gabriel, Mensageiro divino com a que será a Mãe de Jesus. Maria é o primeiro sujeito da Nova Aliança, a Filha de Sião, destinatária da proposição mais ousada que um homem já recebeu. LG 56 retrata a perfeição desta proposição pura de Deus a Maria:
Mas o Pai de misericórdia quis que precedesse à Encarnação a aceitação da Mãe predestinada, para que, desta maneira, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também a mulher contribuísse com a vida. Isso se cumpre de modo eminente na Mãe de Jesus, por ter dado ao mundo a Vida mesma que renova todas as coisas e por ter sido adornada por Deus com dons dignos de uma missão tão grande. Pelo que nada tem de estranho que entre os Santos Padres prevalecesse o costume de chamar a Mãe de Deus de “totalmente santa e imune de toda mancha do pecado”, como moldada enquanto nova criatura pelo Espírito Santo. Enriquecida desde o primeiro instante de sua concepção com o resplendor de uma santidade inteiramente singular, a Virgem de Nazaré, por ordem de Deus, é saudada pelo Arcanjo da Anunciação como “cheia de graça” (cf. Lc 1, 28), ao que responde ao mensageiro celestial: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38).
Mais adiante afirma que foi predestinada desde toda a eternidade para a missão:
A Santíssima Virgem, predestinada desde toda a eternidade como Mãe de Deus juntamente com a Encarnação do Verbo, por disposição da divina Providência, foi na terra Mãe excelsa do divino Redentor (LG 61).
O mesmo Concílio atesta, de modo claro, que Maria cooperou de forma totalmente singular à Redenção de seu Filho:
Companheira singularmente generosa entre todas as demais criaturas e humilde escrava do Senhor. Concebendo a Cristo, gerando-O, alimentando-O, apresentando-O ao Pai no Templo, padecendo com seu Filho quando morria na cruz, cooperou de forma inteiramente ímpar à obra do Salvador com obediência, fé, esperança e ardente caridade com o fim de restaurar a vida sobrenatural das almas. Por isso, é nossa mãe na ordem da graça.
O Concílio ensinou de modo especial essa participação estreita de Maria na obra salvadora de seu Filho, quando concebeu a união estreita com o Redentor desde a concepção virginal até a morte na cruz: “Esta união da Mãe com o Filho na obra da salvação se manifesta desde o momento da concepção virginal de Cristo até a sua morte” (LG 57).
E consentiu (participação ativa) na imolação da santa vítima. Manteve fielmente sua união com o Filho até a cruz, junto da qual, não sem um desígnio divino, manteve-se de pé (cf. Jo 19, 25), sofrendo profundamente com seu Unigênito e associando-se desde as entranhas de mãe ao sacrifício do Filho, consentindo amorosamente com a imolação da vítima que ela mesma havia concebido; e, finalmente, foi dada pelo mesmo Cristo agonizante na cruz como mãe ao discípulo, com estas palavras: “Mulher, eis aí teu filho” (cf. Jo 19, 26-27; LG 58).
Não resta dúvida sobre a doutrina do Concílio em relação à colaboração ativa da Virgem Maria à obra salvadora de Jesus. Os mariólogos convergem nesta ponderação, que se tornou como um patrimônio da teologia.
A Virgem Maria, Mãe de Deus, sujeito da experiência do Encontro com Deus e associada à sua obra redentora, poderia também se associar ao encontro do homem com Deus? Poderia ser considerada uma colaboradora de Jesus e da Santíssima Trindade no encontro com Deus? Estas são perguntas, desde a perspectiva hermenêutica da categoria de encontro, que desafiam o mariólogo de hoje. Do mesmo modo que é legítimo considerar a Maria como colaboradora de seu Filho na obra da salvação, como a Nova Eva que é causa da salvação do gênero humano (Santo Irineu), Maria levaria ao encontro com Deus? As afirmações do Papa João Paulo II contidas em vários de seus escritos sobre Maria enquanto mediadora desse encontro nos servirão de guia para a nossa reflexão.
Entre os textos do Papa João Paulo II, citamos os seguintes:
Este ir ao encontro das necessidades do homem significa, ao mesmo tempo, sua introdução no raio de ação da missão messiânica e do poder salvífico de Cristo.
Maria, a excelsa filha de Sião, ajuda todos os filhos – onde e como quer que vivam – a encontrarem em Cristo o caminho até a casa do Pai.
A Igreja segue a Maria e ao Senhor Jesus caminhando pelas sendas tortuosas da história. (…) A humilde Virgem de Nazaré, como afirma Santo Ambrósio, não é “o Deus do templo, mas o templo de Deus” (De Spiritu Sancto III, 11, 80). Como tal, a todos que recorrem a ela, os guia ao encontro com a Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
A Antiga Aliança se abre aqui, de modo particular em direção àquela Mulher, em cujo seio se realiza o encontro culminante e definitivo da humanidade com Deus-sabedoria, precisamente no mistério da Encarnação do Verbo, na plenitude dos tempos.
A missão fundamental da donzela de Nazaré foi, pois, a de ser o meio de união do Salvador com o gênero humano.
O fato de que Nossa Senhora ocupe um lugar proeminente, como ocorre com a totalidade da fé cristã, não exclui nem ofusca a mediação e a natureza insubstituível de Cristo, que segue sendo o caminho por excelência para o encontro com Deus, como ensina o Concílio Vaticano II.
Peregrino a este santuário, como em minhas viagens apostólicas precedentes que me levaram a Guadalupe, Jasna Góra, Knock, Nossa Senhora da África, Notre Dame, Altötting, Aparecida, Fátima, Luján e a outros santuários, recintos de encontro com Deus e de amor à Mãe do Senhor e nossa…
A Mãe da Divina Providência se revela também nessas palavras: Fazei tudo o que Ele vos disser. Aqui se revela a função essencial de Maria, que é a de conduzir os homens à vontade do Pai manifesta em Cristo. Conduzir seus filhos ao centro do mistério salvador do Redentor dos homens.
Por meio da força de atração e irradiadora dos grandes santuários, em que não somente os grupos locais, mas por vezes nações inteiras e continentes buscam o encontro com a Mãe do Senhor, a que é bem-aventurada porque acreditou (Redemptoris Mater, 28).
Maria, Templo da Nova Aliança e Morada de Deus entre os homens, está presente! A inauguração deste Santuário Nacional, lugar de encontro com Deus a partir das mãos da Mãe do Redentor…
Através da Virgem Santíssima também as novas gerações encontrem a Cristo, único Mediador entre Deus e o homem, e nEle achem a Salvação.
Nesta noite também nós podemos passar através de seu olhar, para reconhecer neste Menino o rosto humano de Deus. Também para nós, homens do terceiro milênio, é possível encontrar a Cristo e contemplá-lo com os olhos de Maria.
Simeão, expressão do Antigo Testamento, experimenta a alegria do encontro com o Messias e sente que conseguiu alcançar a finalidade de sua existência; por isso, disse ao Altíssimo que poderia deixá-lo ir em paz. No episódio da Apresentação, podemos ver o encontro entre a esperança de Israel e o Messias. Também podemos descobrir nele um símbolo profético do encontro do homem com Cristo. O Espírito Santo o torna possível, suscitando no coração humano o desejo deste encontro salvífico e favorecendo sua realização. E não podemos nos esquecer do papel de Maria, que entrega o Menino ao santo ancião Simeão. Por um desígnio de Deus, é a Mãe quem dá Jesus aos homens.
A história da piedade cristã ensina que Maria é o caminho que leva a Cristo e que a devoção filial dirigida a ela não tira nada da intimidade com Jesus; pelo contrário, acrescenta e a leva a níveis altíssimos de perfeição. Os inumeráveis santuários marianos espalhados pelo mundo testemunham as maravilhas realizadas pela graça, por intercessão de Maria, Mãe do Senhor e nossa Mãe. Ao recorrer a ela, atraídos por sua ternura, também os homens e as mulheres de nosso tempo encontram Jesus, Salvador e Senhor de sua vida.
O homem é consciente da infinitude e imensidão de Deus, não circunscrito aos limites do espaço e do tempo, pois “sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos humanas” (At 17, 24). Contudo, o Deus da Aliança, “Aquele que é” (Ex 3, 14), quis habitar no meio de seu povo. O que abarca e em tudo penetra habitava na Tenda, chamada do Encontro, durante a peregrinação do povo rumo à terra prometida. O Senhor pôs sua morada no monte santo, Jerusalém, porque “sua delícia é habitar entre os filhos dos homens” (Pr 8, 31); e, quando “chegou a plenitude dos tempos” (Gl 4, 4) fez se Emanuel, “Deus conosco” (cf. Mt 1, 23). Na pessoa de Jesus, o próprio Deus vai ao encontro do homem. Deus se faz acessível aos sentidos, tangível: “Temos visto, ouvido e tocado no Verbo da Vida, (…) porque a Vida se manifestou e nós a temos visto”, escreve o apóstolo São João (cf. 1Jo 1, 1-2). Com efeito, Jesus “habita corporalmente a plenitude da divindade” (Cl 2, 9), até o ponto em que seu corpo é o templo verdadeiro, novo e definitivo, como temos escutado na leitura do Evangelho (cf. Jo 2, 21). O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14). Logo, com o coração repleto de alegria, proclamamos com o salmista: “Que desejáveis são tuas moradas, Senhor Deus dos exércitos!” (Sl 83 [82], 2).
Deus enviou a seu Filho nascido de mulher. Isto ocorreu na noite de Natal, como também nos recorda o Evangelho de São Lucas que acabamos de escutar. Aí estão os pastores que, nas redondezas próximas a Belém, guardavam seus rebanhos; veem, à meia-noite, uma grande luz e escutam as palavras do anúncio do anjo que lhes chama a se encaminharem àquela gruta. Em seguida, andam até lá e encontram Maria com José e o Menino, colocado em uma manjedoura (cf. Lc 2, 8-17). Esta é a descrição sintética do acontecimento narrada por São Lucas.
Precisamente por isso, a Assunção é um sinal profundamente eloquente. Um sinal verdadeiro de que, ao mesmo tempo que indica o Reino de Deus, reino que se realiza totalmente na eternidade, não deixa de mostrar os caminhos que conduzem a esta morada divina. Em todos os caminhos, cada homem pode encontrar Maria. E mais, ela mesma vem até cada um de nós, como quando foi para a casa de Zacarias para visitar sua prima Isabel.
Como afirmei expressamente na Encíclica Redemptoris Mater, a mediação materna de Maria é “mediação em Cristo” (n. 38). O Concílio explica: “Todo o influxo da Santíssima Virgem na salvação dos homens não tem sua origem em nenhuma necessidade objetiva, mas em que Deus assim dispôs. Brota da abundância dos méritos de Cristo; apoia-se em sua mediação, totalmente dependente dela, e daí consegue obter toda a sua eficácia; favorece, e de nenhuma maneira impede a união imediata dos fiéis com Cristo” (Lumen Gentium, 60).
A mediação de Maria, considerada nesta perspectiva, apresenta-se como o fruto mais alto da mediação de Cristo e está essencialmente orientada a tornar mais íntimo e profundo nosso encontro com Ele: A Igreja não hesita em atribuir a Maria esta missão subordinada; experimenta-a sem cessar e a recomenda ao coração de seus fiéis, para que, apoiados em sua proteção maternal, se unam mais intimamente ao Mediador e Salvador.
Em um de seus escritos teológicos, o Papa Ratzinger concebeu uma interpretação acertada sobre o texto de São Lucas 1, 35 acerca da descida do Espírito Santo sobre Maria na Encarnação:
Alude deste modo ao relato do Antigo Testamento da nuvem santa, que pairava sobre a Tenda do Encontro para indicar a presença de Deus. Desse modo, Maria tornou-se a nova tenda santa, a arca da aliança viva. Seu sim se converteu em lugar de encontro, em que Deus faz morada no mundo.
Ele utiliza, para tanto, a palavra “tenda”, recordando, desse modo, a Tenda do Encontro do Antigo Testamento, a teologia do templo, que se cumpre no Logos feito carne. Na palavra grega usada para designar uma tenda – skenè – também ressoa a palavra hebraica “shekinah“, isto é, a designação da nuvem santa do primeiro judaísmo, que logo se converteu precisamente no nome de Deus e que indicava a graciosa presença de Deus perante a qual os hebreus se reunirão para a oração e o estudo da Lei. Jesus é a verdadeira Tenda.