Do Papa Bento XVI
Primeiro Mistério: O Batismo de Cristo no Jordão
«Por aquele tempo, Jesus veio da Galileia ao Jordão e apresentou-Se a João para ser batizado por ele. Mas João procurava impedi-Lo, dizendo: “Sou eu que preciso ser batizado por Ti, e Tu vens a mim?” Jesus, porém, respondeu-lhe: “Deixa por agora; porque assim convém que cumpramos toda a justiça.” Então João O permitiu. Logo que Jesus foi batizado, saiu da água; e eis que os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele. E uma voz veio dos céus, dizendo: “Este é o Meu Filho amado, em Quem me comprazo.”» (Mt 3,13-17)
Meditação
Jesus foi da Galileia ao rio Jordão para que João o batizasse; para submeter-se a esse sinal de penitência que convidava a converter-se do pecado. Embora se chamasse batismo, não tinha o valor sacramental do rito que celebramos hoje; como bem sabeis, com a sua morte e ressurreição Jesus institui os sacramentos e faz nascer a Igreja.
O que João administrava era um ato penitencial, um gesto que convidava à humildade diante de Deus, convidava a um novo início: ao submergir-se na água, o penitente reconhecia que tinha pecado, implorava de Deus a purificação das suas culpas e era enviado a mudar os comportamentos errados, quase como se morresse na água e ressuscitasse para uma nova vida.
O batismo de Jesus, que hoje recordamos, insere-se nesta lógica da humildade e da solidariedade: é o gesto de quem quer fazer-se em tudo um de nós e se coloca realmente na fila com os pecadores; Ele, que não tem pecado, deixa que o tratem como pecador (2 Cor 5, 21), para carregar sobre os seus ombros o peso da culpa de toda a humanidade, também da nossa culpa.
O gesto de Jesus antecipa a cruz, a aceitação da morte pelos pecados do homem. Este ato de esvaziamento, com o qual Jesus quer conformar-se totalmente ao desígnio de amor do Pai e assemelhar-se a nós, manifesta a plena sintonia de vontade e de fins que existe entre as Pessoas da Santíssima Trindade. (Homilia, Festa do Batismo do Senhor, 9 de janeiro de 2011)
Segundo Mistério: A Autorrevelação de Cristo nas Bodas de Caná
«Havia um casamento em Caná da Galileia, e a Mãe de Jesus estava lá. Jesus e os Seus discípulos também tinham sido convidados para o casamento. Faltando o vinho, a Mãe de Jesus disse-Lhe: “Eles não têm vinho.” Jesus respondeu-Lhe: “Mulher, que temos Nós com isso? A Minha hora ainda não chegou.” A Sua Mãe disse aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” Jesus disse-lhes: “Enchei as talhas de água.” E encheram-nas até à borda. Depois disse-lhes: “Tirai agora e levai ao mestre-sala.” E eles levaram-lhe. O mestre-sala provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha.» (Jo 2,1-10)
Meditação
Neste diálogo com Jesus vemos nela verdadeiramente a Mãe que pede, que intercede. Convém aprofundar um pouco esta passagem do Evangelho, para entender melhor Jesus e Maria, e também para aprender de Maria o modo correto de orar. Maria não faz propriamente um pedido a Jesus; simplesmente lhe diz: “Não têm vinho” (Jo 2, 3). As bodas na Terra Santa celebravam-se durante uma semana inteira; todo o povo participava e, por conseguinte, consumia-se muito vinho. Os esposos encontravam-se em dificuldades e Maria simplesmente comunica isso a Jesus. Não lhe pede nada em particular, e muito menos que Jesus recorra ao seu poder ou realize um milagre produzindo vinho. Apenas informa Jesus e deixa que Ele decida o que é conveniente fazer.
Assim, nas palavras simples da Mãe de Jesus podemos reconhecer dois aspetos: por um lado, a sua terna solicitude pelos homens, a atenção maternal que a leva a perceber as dificuldades dos outros. Vemos a sua bondade afetuosa e a sua prontidão em ajudar. A ela confiamos as nossas preocupações, as nossas necessidades e as nossas dificuldades. Aqui aparece, pela primeira vez na Sagrada Escritura, a bondade e a disponibilidade para ajudar da Mãe, na qual depositamos a nossa confiança. Mas para além deste primeiro aspeto, que nos é muito familiar, há outro que poderia passar despercebido: Maria deixa tudo ao critério de Deus. Ensina-nos assim a rezar: não pretender impor a Deus a nossa vontade e os nossos desejos, por mais importantes ou razoáveis que nos pareçam, mas apresentá-los-Lhe e deixar que Ele decida o que quiser fazer. De Maria aprendemos a bondade e a generosidade em servir, mas também a humildade e a confiança para acolher a vontade de Deus, certos de que a sua resposta, seja qual for, será a melhor para nós. (Homilia, Praça do Santuário Mariano de Altötting, 11 de setembro de 2006)
Terceiro Mistério: O anúncio do Reino de Deus convidando à conversão
“Em seguida, o Espírito o impeliu para o deserto. Permaneceu no deserto durante quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam. Depois que João foi entregue, Jesus foi para a Galileia proclamando o Evangelho de Deus e dizendo: ‘Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho.’” (Mc. 1,12-15)
Meditação
O anúncio do Reino de Deus é o centro da mensagem de Jesus. Mas este Reino não é uma coisa, nem um simples estado, nem um “mundo melhor” que se constrói apenas com esforço humano. O Reino de Deus é o próprio Deus que se faz presente em Jesus Cristo, que atua na história e inaugura um tempo novo. Por isso, anunciar o Reino de Deus é anunciar o próprio Deus: esse Deus vivo, que pode entrar na história e agir nela de forma sempre nova; proclamá-Lo como realidade viva e próxima, como a resposta verdadeira à pergunta sobre o sentido da vida. (Jesus de Nazaré, 2007)
O Reino de Deus não é um sonho, nem uma utopia, mas a presença viva do próprio Deus no meio de nós. O próprio Cristo é o Reino. Onde Ele está, ali o Reino de Deus chega ao mundo. O Reino de Deus significa, em última análise, que Deus está presente e atua entre nós. Não se trata de um mundo melhor imaginado, mas da irrupção de Deus na nossa realidade, que exige conversão e fé. (Homília de Início do Pontificado, 24 de abril de 2005)
As parábolas evangélicas são relatos breves que Jesus utiliza para nos dar a conhecer os mistérios do Reino dos Céus. Com imagens tiradas da vida quotidiana, o Senhor mostra-nos que Deus age na história, entra nas nossas vidas e nos guia. O Reino dos Céus significa, essencialmente, o senhorio de Deus, e isso implica que a sua vontade seja o critério orientador da nossa existência. A prioridade decisiva para todo o cristão é deixar que Deus reine no seu coração; pois só assim se constrói uma vida autêntica e fecunda. (Ângelus, 17 de julho de 2011)
Quarto Mistério: A Transfiguração do Senhor
“Cerca de oito dias depois dessas palavras, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu ao monte para rezar. E, enquanto rezava, o aspecto do seu rosto mudou, e as suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que dois homens conversavam com Ele: eram Moisés e Elias, que apareceram em glória e falavam da sua partida, que Ele estava para consumar em Jerusalém. Então veio uma nuvem que os envolveu com a sua sombra. E ficaram tomados de temor ao entrarem na nuvem. E uma voz saiu da nuvem, dizendo: ‘Este é o meu Filho, o Eleito; escutai-o.’” (Lc. 9,28-36)
Meditação
O evangelista São Marcos relata que Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João a uma montanha alta e se transfigurou diante deles; as suas vestes tornaram-se de um branco resplandecente, “mais brancas do que qualquer lavadeiro no mundo as poderia branquear” (cf. Mc 9, 2-10). A liturgia convida-nos hoje a contemplar este mistério de luz. No rosto transfigurado de Jesus resplandece um raio da luz divina que habitava n’Ele. Essa mesma luz brilhará no rosto de Cristo no dia da Ressurreição. Neste sentido, a Transfiguração é como uma antecipação do mistério pascal. Convida-nos a abrir os olhos do coração à luz de Deus, presente ao longo de toda a história da salvação. (Ângelus – Castel Gandolfo, 6 de agosto de 2006)
O evangelista Lucas destaca especialmente que Jesus se transfigurava enquanto orava: era uma experiência profunda de comunhão com o Pai, num retiro espiritual numa montanha elevada, acompanhado de Pedro, Tiago e João — os três discípulos que estiveram sempre presentes nos momentos em que o Mestre revelou a sua glória (Lc 5, 10; 8, 51; 9, 28). Ao meditar esta passagem do Evangelho, recebemos um ensinamento fundamental: antes de tudo, o primado da oração. Sem ela, todo o empenho no apostolado e na caridade se reduz a mero ativismo. (Último Ângelus de Bento XVI, 24 de fevereiro de 2013)
No rosto transfigurado de Jesus resplandece um raio da luz divina que estava n’Ele. Essa mesma luz resplandecerá no rosto de Cristo no dia da Ressurreição. Por isso, a Transfiguração é antecipação do mistério pascal. A voz do Pai faz-se ouvir: “Este é o meu Filho amado; escutai-O”. É um convite permanente a colocar Cristo no centro da nossa vida. (Ângelus, Castel Gandolfo, 6 de agosto de 2006)
Quinto Mistério: A Instituição da Eucaristia, expressão sacramental do Mistério Pascal
«Ao entardecer, Ele chegou com os Doze. Enquanto comiam, tomou o pão, abençoou-O, partiu-O e deu-Lho, dizendo: “Tomai, isto é o Meu Corpo.” Depois tomou o cálice, deu graças, entregou-Lho, e todos beberam dele. E disse-lhes: “Este é o Meu Sangue da Aliança, que é derramado por muitos. Em verdade vos digo que não tornarei a beber do fruto da videira até aquele dia em que o beberei novo no Reino de Deus.”» (Mc 14,17.22-25)
Meditaçao
A Eucaristia é o dom que Jesus faz de Si mesmo, revelando o amor infinito de Deus por cada ser humano. Nela, Cristo torna-se alimento para a nossa vida, une-nos a Si e entre nós, e envia-nos a ser testemunhas do seu amor no mundo. Na Última Ceia, na noite em que foi entregue, o Senhor instituiu o Sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue. Com este ato, antecipou sacramentalmente o sacrifício da Cruz e concedeu aos Apóstolos a participação no seu Mistério Pascal. Deste modo, Jesus associou para sempre a Igreja ao seu sacrifício pascal. A Eucaristia é, portanto, o memorial da morte e da Ressurreição do Senhor, mistério central da fé cristã. (Sacramentum Caritatis, Exortação Apostólica, 22 de fevereiro de 2007)
A Eucaristia é o coração da vida cristã. Nela, Cristo comunica-se continuamente a nós no seu Corpo e no seu Sangue, introduzindo-nos assim no mistério da sua morte e da sua Ressurreição. A Igreja nasce da Eucaristia e dela vive. É o sacramento da comunhão, que nos une a Cristo e uns aos outros, formando em nós um só corpo e um só espírito. (Primeira Homilia de Bento XVI – Capela Sistina, 20 de abril de 2005)
O “hoje” da instituição da Eucaristia permanece sempre atual. Jesus, na véspera da sua Paixão, tomou o pão e o cálice e entregou-os aos discípulos como o seu Corpo e o seu Sangue. Neste gesto está contido o dom de Si mesmo, a antecipação da Cruz e da Ressurreição. Cada celebração eucarística nos insere neste “hoje” de Cristo, tornando presente o seu sacrifício e a sua vitória. (Homilia, Missa da Ceia do Senhor, Quinta-Feira Santa, 9 de abril de 2009)
Fonte: Livro Devoción de los Primeros Sábados Reparadores del Inmaculado Corazón – Reinado de María