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Aparição da Virgem Nossa Senhora do Pilar

Entre os cem títulos de glória que enobrecem a heroica e imortal cidade de Saragoça, nenhum é mais puro e legítimo do que o de ter a Santíssima Virgem pisado o seu solo com seus pés virginais quando ainda vivia em carne mortal, deixando-lhe, como lembrança de tão preciosa visita, a Imagem e a Coluna que são veneradas com um culto verdadeiramente cristão e fervoroso.

Depois que os Apóstolos receberam o Espírito Santo no dia de Pentecostes, repartiram-se pelo mundo para evangelizar as regiões que a divina Providência havia designado a cada um. A Tiago Maior coube a Península Ibérica; e antes de partir, prostrado aos pés da Santíssima Virgem, pediu-lhe a bênção.

— Vai — disse-lhe a amorosa Mãe — cumpre o mandamento de teu Mestre. E por Ele te encarrego que, na cidade em que converteres à fé o maior número de habitantes, edifiques uma igreja em minha honra, conforme eu mesma te indicarei.

Animado pela bênção da celestial Senhora, o bem-aventurado Apóstolo partiu de Jerusalém e em breve chegou à Espanha, pregando o Evangelho de Cristo.

Percorreu a terra dos cántabros, atravessou a Galiza e, voltando por Castela, entrou em Aragão para levar a luz de Cristo à nobre e antiga cidade de César Augusta — a atual Saragoça. Ali pregou por alguns dias e chegou a converter sete homens, que se tornaram seus primeiros discípulos. De dia os instruía na nova doutrina do Reino de Deus; à noite retirava-se com eles às margens do rio Ebro para descansar. Contemplava as águas, a majestade do firmamento, a imensidade dos astros e, elevando o pensamento, adorava a onipotência de Deus e a sua misericórdia infinita — daquele Deus que, sendo imortal, dignou-se fazer-se homem para remir a humanidade decaída.

Numa noite, absorto em tão santos pensamentos, recordou-se da promessa da Santíssima Virgem e do encargo que lhe havia confiado. Com ardor, suplicou-lhe que cumprisse quanto antes a sua palavra e o visitasse.

Eis que, enquanto orava, vieram até ele suavíssimas harmonias e cantos angélicos, que o tiraram do êxtase:

— Ave Maria, cheia de graça! — ressoou do Céu.

— Cheia de graça! — repetiram os ecos da margem.

A noite resplandeceu com luz celestial; milhares de espíritos bem-aventurados encheram os ares com o canto e o suave movimento de suas asas, celebrando as matinas em honra da gloriosíssima Rainha. Então, a Nova Jerusalém, vestida de luz e de indescritível beleza, desceu do Céu e apareceu diante do Apóstolo: a Santíssima Virgem, sobre uma coluna de mármore. Tiago caiu de joelhos, tomado de santo júbilo.

A Virgem abriu então os lábios e lhe disse:

— Este é, meu filho, o lugar que escolhi para minha morada. Aqui me edificarás um templo e erguerás um altar junto a esta coluna, onde repousam os meus pés. Meu Filho enviou-me do Céu por ministério dos anjos; e aqui o Altíssimo operará grandes maravilhas em favor de quantos me invocarem com confiança. Permanecerei neste lugar, e nunca faltarão filhos meus que adorem a Deus aqui onde pousaram os meus pés.

Cessou de falar a augusta Senhora. Os anjos renovaram seus cânticos e, subindo aos poucos, a visão gloriosa desvaneceu-se como um sonho. O santo Apóstolo ficou ali, banhado em lágrimas: de dor, por ver-se privado daquela presença que havia transformado a noite em luz do Paraíso; e de consolação, pela inefável doçura com que Maria havia enchido o seu coração. A tradição fixa este acontecimento no dia 2 de janeiro do ano 40 da Era Cristã.

Sem perder tempo, o Apóstolo Tiago mandou erguer uma humilde capela, onde foram colocadas a Imagem e a santa Coluna — como tocha resplandecente que trouxe a luz da fé aos povos da Ibéria, até então envolvidos nas trevas da morte.

Dezenove séculos se passaram, e Maria cumpriu fielmente a sua promessa. Nunca faltaram em Saragoça cristãos fervorosos. Não faltaram nos tempos das perseguições, quando, ao lado da ilustre Santa Engrácia, toda aquela plêiade de heróis — conhecidos como os Inumeráveis Mártires de Saragoça — deram a vida e o sangue por Cristo. Não faltaram durante os oito séculos de dominação muçulmana, pois por milagre evidente, o santuário de Nossa Senhora do Pilar jamais foi fechado. Não faltaram quando a heresia assolava outras nações, sem contudo lograr penetrar na Espanha, protegida sempre pela Virgem do Pilar.

Com o correr dos anos e com a fé do povo, ergueu-se o magnífico templo que hoje a todos nos acolhe. Em seu interior encontra-se a chamada Capela Angélica, de mármores preciosos, de forma elíptica e adornada com as célebres pinturas de Goya.

No centro da capela, como pérola em seu invólucro, repousa o altar da Santíssima Virgem. Os fiéis podem beijar a sagrada coluna por detrás, através de uma abertura na parede. Uma rica e elegante grade de prata separa o altar dos fiéis, que ali permanecem em oração. Sempre ardem diante da santa Imagem inúmeras luzes, e a toda hora veem-se devotos em prece, com fé e piedade comoventes.

A Imagem é pequena e representa a Santíssima Virgem com o Menino Jesus nos braços. O Menino apoia uma das mãos no manto de Sua Mãe e traz na outra um passarinho.

Inumeráveis são as graças alcançadas por intercessão da Virgem do Pilar, como atestam os inúmeros ex-votos de valor que se guardam em sua sacristia. As vestes com que se reveste a santa Imagem são variadíssimas e de extraordinária riqueza.

Fonte: Reinado de María

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