00De São João Paulo II
Primeiro Mistério: A Oração do Senhor no Horto
«E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a sentir-Se triste e angustiado. Então lhes disse: “A Minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai Comigo”. E, adiantando-Se um pouco, prostrou-Se com o rosto em terra e orava, dizendo: “Meu Pai, se for possível, afasta de Mim este cálice; contudo, não seja como Eu quero, mas como Tu queres”. Depois voltou aos discípulos e encontrou-os dormindo. Disse a Pedro: “Então não pudestes vigiar Comigo nem sequer uma hora? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito está pronto, mas a carne é fraca”.» (Mt 26,37-41).
Meditaçao
O itinerário meditativo abre-se com o Getsêmani, onde Cristo vive um momento particularmente angustiante diante da vontade do Pai, à qual a fraqueza da carne se sentiria inclinada a rebelar-se. Ali, Cristo coloca-se no lugar de todas as tentações da humanidade e diante de todos os pecados dos homens, para dizer ao Pai: “Não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22, 42 e paralelos).
Esse seu “sim” muda o “não” dos primeiros pais no Éden. E quanto custou essa adesão à vontade do Pai mostra-se nos mistérios seguintes, nos quais, com a flagelação, a coroação de espinhos, a subida ao Calvário e a morte na cruz, Ele aparece imerso na maior ignomínia: Ecce homo!
Nesse opróbrio revela-se não só o amor de Deus, mas o próprio sentido do homem. Ecce homo: quem quiser conhecer o homem deve saber descobrir o seu sentido, a sua raiz e a sua plenitude em Cristo, Deus que se humilha por amor “até à morte, e morte de cruz” (Flp 2, 8). (Rosarium Virginis Mariae, 22)
Mistério no mistério, diante do qual o ser humano deve prostrar-se em adoração. Passa diante dos nossos olhos a intensidade da cena da agonia no Horto das Oliveiras. Jesus, oprimido pela previsão da prova que o espera, só diante de Deus, invoca-O com a sua expressão habitual e terna de confiança: “Abbá, Pai!”. (Novo Millennio Ineunte, 25)
Segundo Mistério: A Flagelação do Senhor
«Pilatos insistiu: “Pois que mal fez Ele?”. Mas eles gritavam ainda mais alto: “Seja crucificado!”. Vendo Pilatos que tudo era inútil e que, pelo contrário, se formava um tumulto, tomou água e lavou as mãos diante do povo, dizendo: “Sou inocente deste sangue. A responsabilidade é vossa!”. Todo o povo respondeu: “Que o Seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!”. Então soltou-lhes Barrabás; e a Jesus, depois de o mandar açoitar, entregou-O para ser crucificado.» (Mt 27,23-26).
Meditaçao
Quando Deus enviou o seu Filho, não esperou que os esforços humanos eliminassem previamente toda a injustiça. Jesus Cristo veio compartilhar a nossa condição humana, com os seus sofrimentos, as suas dificuldades, a sua morte. Antes de transformar a existência quotidiana, Ele soube falar ao coração dos pobres, libertá-los do pecado, abrir-lhes os olhos a um horizonte de luz e enchê-los de alegria e de esperança. O mesmo faz hoje Jesus Cristo, que está presente nas vossas Igrejas, nas vossas famílias, nos vossos corações, em toda a vossa vida. É o sabor e o calor da amizade que nos oferece Aquele que sofreu mais do que nós, que morreu na cruz por nós, que nos prepara uma morada eterna ao seu lado e que, já nesta vida, proclama e afirma a nossa dignidade de homens e de filhos de Deus. (Monterrey, 31 de janeiro de 1979)
Só a fé nos pode dar coragem e força. Aceito na fé, todo o sofrimento humano pode tornar-se participação pessoal na oferta salvífica de Cristo, que sofreu pelos pecados dos homens. O próprio Cristo continua, assim, a sua paixão no ser humano. (Suíça, 16 de junho de 1984)
O sofrimento é o caminho obrigatório para a salvação e a santificação. Para sermos santos, podemos renunciar a este ou aquele carisma, a esta ou aquela aptidão especial; mas não podemos dispensar o sofrimento. Sofrer é um elemento necessário à santidade, tal como o amor. De fato, o amor que Cristo nos ensinou e que Ele viveu primeiro, dando-nos exemplo, é um amor que expia e salva através do sofrimento. O amor dá sentido e torna aceitável o sofrimento. Pode haver amor sem sofrimento, mas o sofrimento sem amor não tem sentido. Aceito com amor, como Cristo o aceitou, o sofrimento adquire um valor inestimável. (Luxemburgo, 15 de maio de 1985)
Terceiro Mistério: A Coroação de Espinhos
«Os soldados levaram-No para dentro do palácio, ou seja, ao pretório, e reuniram toda a coorte. Vestiram-No de púrpura, teceram uma coroa de espinhos e colocaram-lha na cabeça. Começaram então a saudá-Lo: “Salve, Rei dos Judeus!”. Batiam-Lhe na cabeça com uma cana, cuspiam sobre Ele e, dobrando os joelhos, prostravam-Se diante d’Ele. Depois de terem zombado d’Ele, tiraram-Lhe a púrpura e vestiram-No com as Suas próprias vestes.» (Mc 15,16-20).
Meditaçao
Vós que viveis sob a prova, que enfrentais o problema da limitação, da dor e da solidão interior, não deixeis de dar um sentido a essa situação. Na cruz de Cristo, na união redentora com Ele, no aparente fracasso do Homem justo que sofre e que, com o seu sacrifício, salva a humanidade — no valor eterno desse sofrimento está a resposta. Olhai para Ele, para a Igreja e para o mundo, e elevai a vossa dor, unindo-vos a Ele hoje no mistério salvador da sua cruz. Na escola do Verbo Encarnado, compreendemos que é sabedoria divina aceitar com amor a cruz: a cruz da humildade da razão diante do Mistério; a cruz da vontade no cumprimento fiel da lei moral, natural e revelada; a cruz do próprio dever, por vezes pesado e pouco gratificante; a cruz da paciência na doença e nas dificuldades de cada dia; a cruz do esforço constante para corresponder à própria vocação; a cruz da luta contra as paixões e as ciladas do mal. (Roma, 15 de setembro de 1991)
Os cristãos que vivem em situação de doença, dor ou velhice não são chamados por Deus apenas a unir a sua dor à Paixão de Cristo, mas também a receber desde já em si mesmos e a transmitir a outros a força da renovação e a alegria de Cristo Ressuscitado. (Christifideles Laici, 53)
Quarto Mistério: Jesus a Caminho do Calvário com a Cruz às Costas
«Enquanto O conduziam, agarraram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e colocaram sobre ele a Cruz para que a levasse atrás de Jesus. Seguia-O uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele. Jesus voltou-Se para elas e disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e por vossos filhos.”» (Lc 23,26-28).
Meditaçao
Seguindo os passos de Jesus em direção ao Calvário, compreende-se o sentido da dor que salva. E como contemplar Cristo carregando a cruz e sendo crucificado sem sentir a necessidade de nos tornarmos seus “cireneus” junto a cada irmão aflito pela dor ou oprimido pela desesperança? (Rosarium Virginis Mariae, 25; 40)
À medida que cada um toma a sua cruz, unindo-se espiritualmente à cruz de Cristo, revela-se diante dele o sentido salvífico do sofrimento. (Salvifici Doloris, 26)
Para quem tem fé, a cruz já não é instrumento de medo e de morte, mas sinal de vida e de paz. Somos chamados a tomar a cruz todos os dias, pois “Deus nos ensinará os seus caminhos e caminharemos pelas suas veredas”, segundo a visão do profeta Miqueias. (Mq 4, 2)
Ao mesmo tempo, reconhecemos que os planos de Deus não são os nossos, e os seus caminhos não são os nossos (cf. Is 55, 8). A Cruz lembra-nos a necessidade da nossa conversão, de nos afastarmos do pecado e de crermos no Evangelho. (Botsuana, 13 de setembro de 1988)
A cruz é o caminho da vida quotidiana. Cruz é palavra que salva: nela o Filho de Deus manifesta a cada homem a verdade plena sobre si mesmo e sobre a sua vocação. Manifesta-a a todo o homem e a toda a mulher, especialmente àqueles que vivem no sofrimento. (Roma, 5 de abril de 1993)
Quinto Mistério: A Crucificação e Morte do Senhor
«E quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali O crucificaram, e também aos malfeitores, um à Sua direita e outro à Sua esquerda. Veio então trevas sobre toda a terra até à hora nona, porque o sol se escureceu. E Jesus, clamando com voz forte, disse: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito”. Dizendo isto, expirou. O centurião, vendo o que havia acontecido, glorificava a Deus, dizendo: “Verdadeiramente, este homem era justo”. E toda a multidão que se tinha reunido para este espetáculo, vendo o que se passava, voltava batendo no peito.» (Lc 23,33.44-48).
Meditaçao
O grito de Jesus na cruz, queridos irmãos e irmãs, não é a angústia de quem se desespera, mas a oração do Filho que oferece a sua vida ao Pai no amor, para a salvação de todos. (Novo Millennio Ineunte, 26)
No Gólgota, “Ele se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (cf. Flp 2, 5-8). Aos pés da cruz, Maria participa pela fé no desconcertante mistério desse esvaziamento. É talvez este o mais profundo “esvaziamento” da fé na história da humanidade. Pela fé, a Mãe associa-se à morte do Filho, à sua morte redentora; e, ao contrário dos discípulos que fugiam, a sua fé era plenamente iluminada. Jesus diz à sua Mãe: “Mulher, eis o teu filho”. Essa nova maternidade de Maria, gerada pela fé, é fruto de um amor novo, que nela amadureceu definitivamente junto à Cruz, pela sua participação no amor redentor do Filho. (Redemptoris Mater, 18; 23)
Inúmeros sinais mostram como a Santíssima Virgem exerce também hoje, precisamente pela oração, aquela solicitude materna para com todos os filhos da Igreja que o Redentor, pouco antes de morrer, Lhe confiou na pessoa do discípulo amado: “Mulher, eis o teu filho!” (Jo 19, 26). (Rosarium Virginis Mariae, 7)
Ao dizer Jesus do alto da cruz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19, 26), abriu-se de modo novo o Coração da sua Mãe, o Imaculado Coração, e revelou-se a Ela a nova dimensão e a nova amplitude do amor à qual era chamada, no Espírito Santo, por força do sacrifício da cruz. Nas palavras da mensagem de Fátima, parece-nos reconhecer precisamente essa dimensão do amor materno, que na sua imensidão abrange todos os caminhos do homem em direção a Deus. (Fátima, 13 de maio de 1982)
Fonte: Livro Devoción de los Primeros Sábados Reparadores del Inmaculado Corazón – Reinado de María