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O que é a Consagração à Santíssima Virgem Maria?

O amor e a devoção à Mãe de Deus possuem uma singularidade que outras devoções não possuem. A história dos santos dá testemunho dessa maneira única de contemplar Aquela que foi designada como Mãe espiritual de todos os homens. Todos somos chamados a isso. Não se pode ser cristão sem ser mariano.

Nessa universalidade da veneração a Maria Santíssima, existe uma prática que, se assim podemos dizer, intensifica e autentica a nossa união e o nosso vínculo com Nossa Senhora. Não apenas a respeito, amo-Lhe e dou-Lhe demonstração do meu reconhecimento, mas também realizo um ato de “entrega total”, “doação” e “abandono”, que compromete tudo aquilo que sou e tenho à Rainha dos nossos corações. Esse ato é conhecido como “consagração total à Virgem Maria”.

Santos da envergadura de Luís Maria Grignion de Montfort ou de Maximiliano Kolbe fizeram da consagração à Virgem Maria uma parte essencial do serviço e do amor a Maria. Mais ainda: consideravam que, sem essa prática, toda devoção seria frágil, quando não falsa. Manifestações marianas consolidadas na Igreja, como a de Nossa Senhora de Fátima, reivindicam-na como condição necessária para o bem da humanidade. Sem esse elemento, a devoção a Maria torna-se superficial e sem substância.

Embora, teologicamente falando, a palavra “consagração” esteja reservada à dedicação plena do nosso ser a Deus, como princípio e fim das nossas vidas, o conceito de “consagração”, quando bem compreendido, pode ser aplicado em sentido mais amplo à entrega total de amor e serviço, ao abandono incondicional à Mãe de Deus — tal como o próprio Pai faz ao colocar o seu Filho, pela ação do Espírito Santo, no Seio de Maria. “Tanto amou o Pai o homem que Lhe entregou, como oferta sacrificial, o seu Unigênito e o depositou no Seio da humilde donzela de Nazaré.”

Do que se trata, então, a consagração? Por que ela é central e imprescindível? Vamos desenvolver este tema segundo a tradição e a espiritualidade mariana da Igreja. A Palavra de Deus e a Tradição legitimam essa prática tão arraigada nas almas e nas vidas dos verdadeiros devotos de Maria.

Na teologia católica, a consagração é um ato da virtude da religião pelo qual o ser humano reconhece Deus como seu Criador e Senhor e se entrega a Ele sem qualquer reserva, separando-se de tudo aquilo que é mundano — embora não seja mau. A consagração das pessoas chamadas à vida religiosa constitui um exemplo claro.

Para São Luís Maria Grignion de Montfort, a consagração seria um ato da vontade pelo qual cada pessoa se entrega totalmente a Deus.

Consagração na Sagrada Escritura

No Antigo Testamento, a comunidade e cada indivíduo do Povo de Deus, Israel, são convocados a viver a Aliança com o Deus Santo. O próprio Senhor toma a iniciativa de oferecer uma aliança que promete a felicidade ao homem: ela não é outra coisa senão a comunhão com o Deus Santo e de majestade imponente. Participar dessa santidade divina significava ser constituído “consagrado a Deus”. Essa consagração:

  • Pressupunha, em primeiro lugar, uma necessária separação radical do que é profano;
  • E se construía por meio da comunhão com a vida de Deus.

Aquele que era integrado na esfera do divino e do santo e arrancado do mundo estabelecia-se na permanência dessa “apropriação divina na liberdade” e se comprometia a cumprir a aliança: “Tudo o que o Senhor disse, nós o cumpriremos” (Êxodo 19,8). Portanto, fazer parte da Aliança transformava o povo peregrino — a todos e a cada um — em consagrados ao Senhor e imprimia neles o selo de uma dependência amorosa, ao mesmo tempo exigente.

“Agora, pois, se ouvirdes de fato a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis a minha propriedade particular entre todos os povos; porque minha é toda a terra; sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” Estas são as palavras que direis aos filhos de Israel (Êxodo 19,5-6).

Essa consagração exige que o Povo eleito se distinga dos demais povos pelo culto ao Deus verdadeiro e único, pela observância dos mandamentos e pelo código moral da lei da santidade: “Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (Levítico 19,2). Existe um apelo urgente de Deus para que sejamos santos e nos consagremos a Ele, acompanhado de uma promessa da sua assistência e do seu auxílio. Constatamos que “consagração a Deus” equivale a um “compromisso” de lutar para permanecer na santidade — a qual não é senão amizade com Deus, disposição interior de entrega total a Deus e de aceitação da Sua Vontade.

A santidade de Deus, comunicada e vivida na Aliança, é testemunhada pela Arca da Aliança e pela Tenda do Encontro (cf. Êxodo 25,10-22; 33,7-11; 40,34-38). Ali, a Presença divina manifesta-se por meio da nuvem, que também é sinal do Deus que acompanhou o Povo peregrino no deserto. Na Tenda do Encontro, realizava-se o contato com o Deus Santo e, nesse encontro, estabelecia-se uma relação pessoal de amor (cf. Êxodo 33,11). Algo inaudito e impensável estava acontecendo quando Deus chama o Povo santo e exige dele a consagração e a santidade.

De forma paradoxal e surpreendente, o povo favorecido pela eleição divina rompe repetidamente a aliança e atrai o desagrado do seu Pai e Criador. Mas Deus, na sua infinita misericórdia, em vez de se resignar à inconstância humana, estabelece uma nova aliança, movida por um novo amor divino (Jeremias 31,31-34; Ezequiel 36,37-38; 37,26-28). Na sua obstinação misericordiosa, Deus empenha-Se em resgatar o homem da sua queda.

O sentido bíblico-teológico de “consagrado-santo” foi expresso com muita clareza pelo Papa

Bento XVI num parágrafo luminoso:

“‘Consagrado’, ou seja, ‘santo’ (qadoš, na Bíblia hebraica), no seu sentido pleno, segundo a concepção bíblica, é somente o próprio Deus. A santidade é o termo usado para exprimir o seu modo próprio de ser, o ser divino enquanto tal. Assim, a palavra ‘santificar, consagrar’ significa transferir algo — pessoa ou coisa — para a propriedade de Deus e, especialmente, destiná-lo ao culto. Isso pode consistir, por um lado, na consagração para o sacrifício (cf. Êxodo 13,2; Deuteronômio 15,19); por outro, pode significar a consagração ao sacerdócio (cf. Êxodo 28,41), destinando uma pessoa a Deus e ao culto divino.” (Bento XVI, Jesus de Nazaré II).

Em suma, desde os primeiros anúncios da Sagrada Escritura, Deus convida o homem a consagrar-Se a Ele, a pertencer-Lhe de forma exclusiva e a viver da própria vida divina, mas em liberdade, atraído unicamente pela Sua bondade e num respeito pleno de amor pelo Seu poder majestoso. Consagrar-se a Ele é entrar no núcleo do Seu amor e transformar a existência em serviço a Deus e aos “filhos de Deus”. Pois o serviço de Deus é a glória do homem (Santo Irineu). Não se trata de uma conquista ou de uma decisão humana independente; a consagração responde ao desejo divino, que anseia por preencher o homem com a plenitude da bondade, da beleza e do poder.

Existe continuidade entre a consagração do Antigo Testamento e a do Novo Testamento.

Há um chamado inequívoco à santidade para todos os batizados: “Ele nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dEle, no amor” (Efésios 1,4). Mais ainda: Deus oferece ao homem a sua própria divindade para que dele participe de forma inexprimível, como indica 2 Pedro 1,3-4: “Ele nos chamou pela sua própria glória e poder […] para que vos torneis participantes da natureza divina”.

O Deus que predestina, justifica e glorifica (Romanos 8,30) é Aquele que nos santifica por iniciativa própria (1 Coríntios 1,2; Romanos 15,16). “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”, os cristãos tornam-se membros da aliança divina e fazem ressoar a declaração inequívoca do próprio Senhor.

É um mandamento de JESUS, uma missão irrenunciável da Igreja: “Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar tudo o que vos ordenei. E eis que estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mateus 28,19-20).

Portanto, o pertencimento a Deus e a comunhão com Ele, que no Antigo Testamento se expressavam pelo chamado à santidade, realizam-se no Novo Testamento por meio do Batismo (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1213; 1262-1274). Somos chamados a viver a santidade como plenitude do amor do Pai: “Sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial”. São Paulo é claro e não deixa margem a dúvidas sobre a vocação de todos os cristãos.

“Exorto-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus — o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito” (Romanos 12,1-2).

Jesus é o Consagrado Pelo Espírito Santo. Nós Somos A Nação Consagrada A Deus Pelo Batismo

Jesus é o “sim” de Deus às Suas promessas (2 Coríntios 1,20), para estabelecer nEle uma nova aliança, um Novo Povo de consagrados a Deus.

Ele mesmo é o Santo de Deus (cf. Marcos 1,24; Lucas 4,34; João 6,69). Jesus foi consagrado — ou seja, ungido — pelo Espírito, como detalham os Atos dos Apóstolos 10,38. E o Senhor deseja tornar os Seus discípulos participantes incondicionais dessa consagração, a partir da fé e do amor que têm em Jesus.

Ele consagra-Se ao Pai com liberdade e desejo espontâneo, constituindo-Se no ápice ontológico de toda consagração. O Verbo encarnado reconduzirá toda a Criação, ferida pelo pecado, ao seu Autor e Pai.

O Papa Bento XVI estabelecia a ligação consequente entre a consagração de Jesus e a dos discípulos:

“Chegamos agora à terceira consagração mencionada na oração de Jesus: ‘Santifica-os na verdade’ (João 17,17). ‘Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade’ (João 17,19). Os discípulos devem estar envolvidos na consagração de Jesus; também neles deve realizar-se essa transferência de propriedade, essa passagem para a esfera de Deus e, com isso, concretizar-se a sua missão no mundo. ‘Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade’: o facto de passarem a pertencer a Deus, a sua ‘consagração’, está unido à consagração de Jesus Cristo; é participar do Seu ser consagrado.” (Bento XVI, Jesus de Nazaré II).

O discípulo é convidado, sob a ação do amor de Jesus, a consagrar-Se na doação total de si mesmo, com as mesmas características da consagração do seu Mestre e Senhor, em termos de sacrifício e de culto. Trata-se de um sacrifício em toda a sua plenitude, tal como o foi o de Jesus!

A nação consagrada (cf. Êxodo 19) identifica-se agora numa Pessoa: Jesus Cristo, o Senhor. Pela Sua Encarnação, Ele é a presença do Santo (Lucas 1,35) num mundo pecador que deu as costas à Aliança. Nele tornam-se visíveis as duas dimensões da Aliança: a majestade imponente — sobretudo perante a miséria do pecado: “Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um pecador” (Lucas 5,8) — e a atração da Sua bondade (cf. Mateus 4,25).

Se o Batismo nos consagra ao Pai em Jesus, isso se deve à graça santificante. A participação na natureza divina sobrenatural é-nos concedida pela graça santificante, e esta é-nos dada no Batismo. No nosso Batismo, “somos consagrados, santificados, divinizados”:

“A graça é participação na vida de Deus. Introduz-nos na intimidade da vida trinitária: pelo Batismo, o cristão participa da graça de Cristo, Cabeça do Seu Corpo. Como ‘filho adotivo’, pode agora chamar ‘Pai’ a Deus, em união com o Filho unigênito. Recebe a vida do Espírito, que infunde a caridade nele e forma a Igreja.” (Catecismo da Igreja Católica, 1997).

O Batismo revela-se como o grande dom imerecido que Deus concede ao homem (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1999), um dom sobrenatural (ibid., 1998) que, ao mesmo tempo, é um chamado e uma exigência inevitável: “Mas fostes lavados — isto é, batizados — fostes santificados, fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6,11).

Já não vivemos para nós mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por nós (cf. 2 Coríntios 5,15). Pertencemos-Lhe em liberdade e alegria; a nossa vida é dEle, e isso constitui a nossa maior glória.

O Espírito Santo é o autor da santificação em nós (cf. 2 Tessalonicenses 2,13 e Catecismo da Igreja Católica, 2003) e consagra-nos a Jesus (cf. João 15,26), ao Pai e a toda a Santíssima Trindade. O Espírito que transformou a Santíssima Virgem (cf. Lucas 1,34) realizará também essa transformação em nós.

O Padre Rodrigo Molina, mestre de espiritualidade, expressou-o com clareza:

O Espírito Santo é Aquele que nos abre o caminho da Verdade. E o caminho da Verdade é Jesus. Em Jesus, Deus revela-Se a mim, dá-Se a conhecer a mim. O Espírito Santo é Aquele que me faz conhecer Jesus, leva-me a interiorizá-Lo e, consequentemente, abre-me a Ele e faz crer nEle.

Tudo se resume numa síntese expressiva num texto do Doutor da Igreja Santo Irineu:

O Batismo “concede-nos a graça do novo nascimento em Deus Pai, por meio do Seu Filho, no Espírito Santo. Pois aqueles que são portadores do Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, ou seja, ao Filho; e o Filho apresenta-os ao Pai, e o Pai concede-lhes a incorruptibilidade. Portanto, sem o Espírito não é possível ver o Filho de Deus e, sem o Filho, ninguém pode aproximar-se do Pai; porque o conhecimento do Pai é o Filho, e o conhecimento do Filho de Deus realiza-se pelo Espírito Santo” (Santo Irineu de Lião, Demonstratio praedicationis apostolicae, 7).

Devemos ter consciência da nossa dignidade e agir em conformidade com ela. Trata-se de um caminho de amor, que se traduz na observância dos mandamentos.

O povo será o conjunto dos consagrados n’Aquele que é o Consagrado — filhos no Filho.

Em suma, a Aliança com Deus conduz-nos à consagração, que é recebida no Batismo. Consagrados pelas águas batismais, formamos um só com Jesus, e o Espírito Santo é Aquele que realiza essa graça sublime, pela qual nunca seremos suficientemente gratos. O Concílio Vaticano II recorda que, pelo Batismo, o homem morre para o pecado e é consagrado a Deus (Lumen Gentium, 44).

Maria é a Consagrada Perfeita

Longe de silenciar a pessoa e a missão de Maria Santíssima, a Sagrada Escritura, numa síntese concisa e substancial, exalta a figura e o ministério da Mãe de Deus.

Ela aparece como a perfeita consagrada a Deus. O olhar de Deus pousa sobre Ela, que Se torna objeto permanente e pleno da benevolência divina (Lucas 1,28). Quando o Espírito Santo a cobre com a Sua sombra (Lucas 1,35), faz ecoar fortemente a “suave presença” da nuvem da glória de Deus sobre o Tabernáculo (Êxodo 40,35). Essa sacralidade e manifestação da glória divina recordam também a Arca da Aliança (2 Samuel 6,1-11). A presença do Espírito sobre Ela assemelha-se a uma profunda unção, a uma consagração. Santa Maria inaugura essa presença de Deus entre nós e realça o caráter excepcional da sua colaboração eficaz para que o Santo esteja presente na nossa história como Alguém íntimo a Ela.

Mas a Aliança só atingirá a sua plenitude com a resposta dos eleitos. Uma consagração completa só se realiza quando o homem se consagra livremente a Deus. E a resposta de Maria ao convite de Deus foi inequívoca e total: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1,38). Trata-se de um ato de disponibilidade, de obediência e de entrega que consolida um abandono confiante, pleno e adorador a Deus e ao Seu plano salvífico. Consagrar-Se, portanto, não é um ato passivo, de mera recepção, mas algo que põe o homem em movimento, com o mesmo dinamismo do Senhor.

Quando a Virgem Maria apresenta o seu Menino no Templo (Lucas 2,22-24), renova a oferta e a consagração a Deus por meio da sua purificação — que equivale a uma consagração. Ela não precisava de purificação, pois era a “Puríssima, possuída unicamente por Deus”, mas esse ato de obediência reforça a consagração da Anunciação. Maria, disponível aos desígnios de Deus pela sua consagração perfeita e insuperável, renova-a. Alguns vêm nesse gesto uma oferta sacrificial realizada no Templo: a Mãe oferece o seu Filho; no Templo, renuncia ao seu Filho — e essa renúncia será fonte de sofrimento recorrente. É significativo que a Apresentação-consagração do Menino Jesus se realize pelas mãos de Maria e nas suas mãos. Percebe-se claramente que toda consagração à Virgem Maria revive esse momento. A Virgem conduz-nos nas suas mãos para sermos apresentados ao Pai, pelo Filho, no Espírito. Ela participa ativamente, tanto aqui como no Calvário, na consagração sacrificial e sacerdotal do seu Filho.

Será no Calvário que a Virgem-Mãe consagrada viverá o momento mais completo de entrega materna (João 19,25-27). Oferece o seu Filho em sacrifício na Cruz, sacrificando-Se com Ele (cf. Lumen Gentium, 58). Ambos os sacrifícios estão unidos numa oferta sem reservas, em que a Mãe e o Filho se dão, mas transfixados pelo amor que os une. Ao mesmo tempo, o discípulo João e, nele, todos os discípulos de Jesus acolhem a Mãe Dolorosa e integram-na na própria vida. Acolhem-na consagrando-se a Ela, para cumprirem a vontade do Filho. Contemplamos aqui um dos fundamentos bíblicos da consagração à Virgem Maria, entendida como abandono confiante e total.

 A Consagração A Maria Ao Longo Da História

O Protoevangelho de Tiago (século II), talvez o mais importante dos textos apócrifos, refere que a menina Maria se consagrou a Deus no Templo à idade de três anos. A criança separa-se de tudo o que é profano para pertencer inteiramente a Deus, somente a Deus e para sempre a Deus.

Maria faz voto de virgindade, que expressa amor total e consagração a Deus. Ela torna-se o modelo que o monaquismo primitivo procurará imitar na sua virgindade — consagração a Deus, separação do mundo —, sinal de pertença e dedicação exclusiva a Deus. Tornar-se sagrada, consagrada.

Ela é a consagrada por excelência, como salientam Santo Ambrósio e Santo Epifânio.

Um vestígio antigo dessa entrega total a Maria está na oração antiquíssima Sub tuum praesidium. O povo fiel recorre à sua Mãe piedosa e refugia-Se no seu amor misericordioso, esperando a Sua ajuda.

São Ildefonso de Toledo († 667) reúne, no serviço à Mãe de Deus, os conteúdos explícitos da consagração:

“Por isso, sou Teu servo, porque o meu Senhor é o Teu Filho. Por isso, és a minha Senhora, porque és serva do meu Senhor. Por isso, sou escravo da escrava do meu Senhor, porque Tu, minha Senhora, foste Mãe do meu Senhor. Por isso, fui feito escravo, porque Tu foste feita Mãe do meu Criador. Mas agora me dirijo a Ti, única Virgem e Mãe de Deus; prostrado diante de Ti, única obra da Encarnação do meu Deus; humilhado diante de Ti, única que foste Mãe do meu Senhor; suplico-Te, única que foste serva do Teu Filho, que alcances o perdão dos meus pecados, que me faças amar a beleza da Tua virgindade, que me faças conhecer a grandeza da doçura do Teu Filho, que me concedas guardar a pureza da fé nEle, que me concedas consagrar-me a Deus, ser escravo do Teu Filho e Teu, e servir ao Teu Senhor e a Ti.”

A primeira entrega total a Maria é atribuída a São João Damasceno († 749): “Também nós hoje nos apresentamos a Ti, ó Soberana — repito, ó Soberana, Mãe de Deus e Virgem —; entregamos-Te a nossa alma e a nossa esperança; consagramos-Te a nossa mente, a nossa alma, o nosso corpo, todo o nosso ser”.

Na Idade Média, era comum os cavaleiros fazerem uma entrega (traditio) à Virgem Maria.

Com a Ordem dos Servos de Maria (século XIII), surge a Deditio — entrega, rendição — à Virgem Maria, no espírito de serviço filial. Trata-se de uma atitude interior de reverência e confiança, com pureza de coração e de corpo.

Nas Congregações Marianas da Companhia de Jesus, no final do século XVI — às quais pertenceu o Padre Rodrigo Molina —, praticava-se a Oblatio à Virgem: uma doação solene e irrevogável à Santíssima Virgem, com o desejo de Lhe pertencer para sempre, de depender dEla em tudo, num serviço humilde, e de a reconhecer como Senhora e Soberana. Consistia em abandonar-Se totalmente à Sua vontade e ao Seu poder, em todos os momentos da vida, com todas as faculdades e ações. Essa Oblatio passou a designar-se “consagração” no início do século XX. Após o Concílio Vaticano II, passou a ser expressa como “amor filial à Virgem Maria”.

Mestres de espiritualidade mariana do século XVII, como Maria de Santa Teresa e Miguel de Santo Agostinho, testemunham ter sido “desapossadas de si mesmas” e totalmente consagradas à Virgem. Vivem numa “vida mariana”, como experiência de contato, identificação e adesão amorosa a Maria, para viverem mais intensamente a vida divina.

Na Espanha, surgiu a devoção da “Santa Escravidão” à Mãe de Deus, em Alcalá, no século XVI. São Simão de Rojas e Agostinho dos Rios foram os seus expoentes, tal como a apresentou São Luís Maria Grignion de Montfort. De lá, passou para a França e foi acolhida pelo Cardeal de Bérulle e por outros importantes centros de espiritualidade.

É neste contexto que surge São Luís Maria Grignion de Montfort, que se formou no Seminário de São Sulpício e recebeu essa herança espiritual, à qual conferiu fundamentos sólidos.

Fonte: Reinado de María

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