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As Pré-Anunciações e as Prefigurações da Bem-Aventurada Virgem Maria

Por Reinado de María

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Desde antes da criação do mundo, o desígnio de Deus já contemplava Maria. Como ensina São João Paulo II: “No desígnio eterno de Deus, Ela está associada a Cristo desde o princípio” (Homilia na solenidade da Assunção, 15 de agosto de 1997). A Igreja professou sempre que a Mãe de Deus não foi chamada apenas no momento da Anunciação, mas escolhida e preparada no coração do Pai desde toda a eternidade.

São Maximiliano Maria Kolbe confirma: “A Imaculada foi concebida na mente de Deus desde o primeiro instante da criação” (Escritos Espirituais). Por isso, a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja não nos apresentam Maria como uma figura que surge de repente, mas como Aquela que foi anunciada, prometida e prefigurada ao longo de milénios, até que, na plenitude dos tempos, pronunciou o seu “sim” e a Palavra eterna se fez carne no seu seio.

O presente percurso revela como esta presença, querida por Deus, se manifestou ao longo de toda a história da salvação: desde as sombras e figuras do Antigo Testamento, passando pelos primeiros testemunhos dos Santos Padres e pelas orações mais antigas, até ao ensinamento esplendoroso da idade de ouro patrística, à riqueza litúrgica e poética das Igrejas do Oriente e do Ocidente, e à profunda reflexão dos mestres e santos da Idade Média. Através de profecias, textos veneráveis, hinos, tratados e testemunhos de fé de cada época, descobriremos como a consciência da Igreja reconheceu, pouco a pouco e com crescente clareza, a grandeza única daquela que foi preparada desde sempre para ser Mãe de Deus. E neste caminho de encontro com Ela, resplandece de modo singular o Santo Rosário (coroa de orações tecida com a vida de Cristo), legado transmitido de geração em geração como herança preciosa, vínculo que une os fiéis de todos os tempos a Maria e, por Ela, a Jesus.

O Protoevangelho

O termo Protoevangelho provém das palavras gregas proto (“primeiro”) e evangelion (“boa notícia”). Segundo o pensamento católico, refere-se à primeira promessa de salvação nas Sagradas Escrituras, contida em Gênesis 3,15: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela; ela te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.
Ali, após o pecado original, Deus anuncia que a descendência da mulher vencerá a serpente, imagem do mal. A Igreja interpreta essa passagem como a primeira profecia a respeito de Cristo, o Redentor, que derrotará o poder do pecado e da morte. Maria, a nova Eva, é vista como a mulher associada a essa vitória, por sua maternidade virginal e sua fidelidade a Deus.
Assim, o Protoevangelho é considerado a semente inicial do anúncio da redenção, que se desenvolve plenamente ao longo da história da salvação, culminando em Jesus Cristo.

A Profecia do Emanuel

“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e por-lhe-ão o nome de Emanuel” (Isaías 7,14). Esta Palavra, pronunciada sete séculos antes, resplandece no centro da história. Como explicou o Papa São Pio X na sua encíclica Ad diem illum laetissimum: “Esta profecia não anuncia apenas o nascimento do Salvador, mas indica também a Mãe escolhida por Deus antes dos séculos” (2 de fevereiro de 1904). Deus não esquece. A promessa mantém-se, cresce, amadurece, até que, na plenitude dos tempos, encontra o seu “sim” humano. A profecia não é apenas anúncio; é convite, é preparação, é fidelidade que espera.

As Figuras

Toda a Escritura Antiga prepara o caminho. A vara de Aarão que floresceu símbolo da sua virgindade fecunda, a sarça ardente que não se consumia imagem da sua pureza intacta, a porta fechada pela qual só passa o Senhor profecia da sua conceção virginal, a torre e a casa elevada figuras da sua fortaleza e santidade: tudo fala d’Aquela que seria pura, fiel, aberta só a Deus. Cada figura é um reflexo que anuncia a Luz. São Boaventura comenta: “Tudo o que Deus realizou no Antigo Testamento foi como um esboço preliminar do que faria plenamente em Maria” (Sermões Marianos).

A Mulher do Apocalipse

“Apareceu no céu um sinal grandioso: uma Mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos seus pés e, na cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Apocalipse 12,1). É a Igreja; é também Maria. O Papa Leão XIII, na sua encíclica Octobri mense, ensina: “Esta Mulher é Maria que, associada à vitória de Cristo, aparece como Rainha e Mãe de toda a criação” (22 de setembro de 1891). A Mulher que dá à luz o Filho destinado a governar todas as nações, perseguida mas protegida por Deus, é imagem perfeita d’Aquela que cumpriu primeiro o desígnio divino e agora resplandece como sinal de esperança para todo o povo de Deus.

Os Primeiros Séculos

Eva e Maria
Já nos primeiros Padres se estabelece a comparação que tudo ilumina: Eva disse “não” e fechou a porta da vida; Maria disse “sim” e abriu-a para sempre. São Justino, no Diálogo com Trifão, escreve: “A morte veio por Eva; a vida veio por Maria. Uma virgem desobediente trouxe a morte; uma Virgem obediente trouxe a vida” (cap. 100).

O Protoevangelho de Tiago

No relato antigo, a infância de Maria aparece rodeada de respeito e silêncio. Os seus pais, Ana e Joaquim, oferecem-na ao Senhor; no Templo, cresce sob a proteção de Deus. A pureza da sua vida é reflexo da santidade que nela se preparava. Estes textos não constituem narrativa histórica em sentido estrito, mas testemunham como a fé da Igreja sempre reconheceu Maria como diferente, singular, escolhida desde o princípio.

O “Sub Tuum”

É a oração mais antiga conhecida dedicada a Maria, encontrada num papiro do século III: “Sob o vosso amparo nos acolhemos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas nas nossas necessidades, mas livrai-nos de todos os perigos, ó sempre Virgem gloriosa e bendita”.
Tudo está aqui: confiança, refúgio e certeza de que Ela escuta e protege.

A Idade de Ouro dos Santos Padres

Santo Efrém
“Vós sois a porta pela qual entrou o Senhor; sois a fonte que nunca se turva; sois a Virgem que concebeu sem semente e deu à luz sem dor” (Hinos sobre a Virgem Maria, século IV). Canta Maria como jardim fechado, onde cresce a flor que é o próprio Deus. Nada a mancha; tudo nela é beleza.

Santo Ambrósio
Ensina em Milão que a virgindade de Maria é modelo para todos: “Maria é o espelho da Igreja: fiel, pura e fecunda” (De virginibus, livro II). Destaca também a sua fé: “A fé de Maria realizou aquilo que o mundo não esperava”. Não foi apenas o seu corpo que se manteve puro; foi todo o seu coração, que nunca se afastou de Deus.

Santo Agostinho
“Deus escolheu uma Mãe que, sendo perfeita, convinha ao Filho perfeito” (Sermão 215 sobre as palavras do Evangelho). Ensina que a graça preparou Maria de modo especial, tornando-a digna d’Aquele que nela habitou. O seu mérito não procede dela mesma, mas do amor primeiro de Deus, que a precedeu e a formou.

Prudêncio e Sedúlio
Poetas da salvação, cantam a vitória que veio por Maria. Sedúlio escreve: “O mundo foi restaurado por uma virgem, assim como havia sido perdido por uma mulher” (Carmen Paschale, livro I).

São Cirilo de Alexandria
No Concílio de Éfeso proclama com vigor: “Maria é Mãe de Deus” (Discurso diante do Concílio, 431 d.C.). Não é apenas mãe de um homem; é verdadeiramente Mãe de Deus, porque Aquele que nasceu d’Ela é Deus. “Salve, Mãe de Deus, honra do mundo”.

A Igreja Grega

A Conversão de Santa Maria Egipcíaca
A Virgem aparece-lhe e chama-a de volta: “Vem, segue-Me”. A misericórdia de Maria não rejeita ninguém; a sua intercessão abre caminho ao arrependimento e à vida nova.

Hino da Liturgia de São Basílio Magno
“Vós sois verdadeiramente bem-aventurada… porque destes à luz Deus Verbo”. A assembleia repete-o a uma só voz. A gratidão da Igreja eleva-se dia após dia.

O Hino Akáthistos
Cantado de pé, é um poema inteiro de louvor: “A Vós, Defensora, canta a vossa cidade, libertada por Vós…”. Cada estrofe exalta um mistério: a Anunciação, o nascimento, a fuga, a presença junto à Cruz. Tudo é maravilha.

Romano, o Melodista
“Como pudestes conter Aquele que tudo contém?” (Hinos Litúrgicos, século VI). Canta o mistério da Encarnação com doçura e assombro. O Deus infinito cabe no seio de uma donzela.

Basílio de Selêucia
“Maria é a fronteira entre Deus e os homens” (Sermão sobre a Anunciação). Por Ela, o invisível torna-se visível; o eterno entra no tempo.

Carta Dogmática de São Sofrônio
“Concebeu sem semente, deu à luz sem dor, conservou a virgindade intacta” (Carta a Sérgio, 634 d.C.). Tudo nela é novo e único.

São Germano de Constantinopla
“Vós sois a Mãe, sois a Serva, sois a Rainha” (Homilia sobre a Dormição). Tudo ao mesmo tempo, porque o amor de Deus realizou nela grandes coisas.

Santo André de Creta
“A Virgem é a ponte que Deus construiu para descer até nós” (Sermões Dogmáticos). Por Ela se atravessa o abismo.

São João Damasceno
Defendeu com firmeza o culto às santas imagens e a honra à Mãe de Deus: “Quem honra a imagem, honra Aquele que nela se contempla” (A Fé Ortodoxa, livro IV). E Maria é a imagem mais perfeita de Deus.

São Teodoro Estudita
“O vosso nome é alegria” (Carta a um Monge). Quem Vos invoca sente-se acolhido.

O “Lembrai-vos” dos Gregos
“Lembrai-vos de nós, Santa Mãe de Deus…”. A súplica é simples, confiante e repetida através dos séculos.

A Igreja Latina até ao Século XI

Canto de André, o Orador, a Rusticiana
“A Virgem Maria, que supera toda a beleza, que brilha mais que o sol…”. A beleza de Deus reflete-se nela.

Ó Gloriosa Senhora
Hino antigo: “Ó gloriosa Senhora, Mãe do Rei…”. Os coros repetem-no com devoção.

Hino de Paulo Diácono
“Salve, Mãe de Deus, Rainha do mundo…”. A saudação ressoa de geração em geração.

Ave Maris Stella
“Salve, Estrela do Mar… guiai-nos quando as ondas nos ameaçarem”. É a estrela que não se apaga.

Regina Coeli e Alma Redemptoris Mater
Duas coroas de louvor: “Alegrai-vos, Rainha dos céus…”; “Morada do Redentor, ó Virgem…”.
A Igreja reza e canta.

Gaude Dei Genitrix
“Alegrai-vos, Mãe de Deus… porque Ele Vos exaltou acima de todas as criaturas”.

Salve Rainha
“Salve, Rainha, Mãe de misericórdia… a Vós suspiramos, gemendo neste vale de lágrimas”. É a oração mais amada, que termina com o pedido: “Mostrai-nos Jesus”.

Santo Ildefonso de Toledo
Defendeu com ardor a virgindade de Maria: “Honrai a Mãe de Deus, que não conheceu homem” (Sermão sobre a Virgindade de Maria). A Virgem apareceu-lhe e entregou-lhe uma túnica como recompensa.

São Pedro Damião
“Maria é Rainha, Advogada e Esperança” (Sermão em honra da Virgem). A Ela confiam todas as dores.

O Século XII

Santo Anselmo de Cantuária
“Olhai com bondade, ó Senhora… nada é impossível à vossa súplica” (Orações e Meditações). A sua oração está repleta de confiança filial.

Edmero de Cantuária
Escreveu o primeiro tratado sobre a Imaculada Conceição: “Deus pôde fazê-lo; convinha que o fizesse; portanto, fê-lo” (De Conceptione Beatae Mariae Virginis, 1140). Maria foi preservada do pecado original.

São Bernardo de Claraval
“Ninguém Vos iguala, ó Maria… Vós sois a única esperança” (Sermões sobre a Salve Rainha). Exorta a recorrer sempre a Ela: “Em todos os perigos, em todas as dificuldades, pensai em Maria, invocai Maria”.

Ricardo e Adão de São Vítor
Aprofundam o mistério: “Deus escolheu a mais humilde para confundir os orgulhosos” (Tratados Marianos).

Filipe da Boa Esperança e Germano José
Cantam a doçura e a presença constante de Maria.

Omni Die
Oração diária: “Todos os dias, ó Maria, Vos saúdo…”. Fidelidade pequena e preciosa.

Ave Regina Caelorum
“Salve, Rainha dos céus…”. Cântico que se eleva ao entardecer.

Salve Mater Misericordiae
“Salve, Mãe de misericórdia… refúgio dos pecadores”.

O Santo Rosário

São Domingos recebeu das mãos da Virgem a inspiração desta oração simples: formada por Pai-Nossos e Ave-Marias, medita passo a passo a vida de Jesus juntamente com Maria. O Rosário é o Evangelho feito oração, o compêndio da fé transmitido de geração em geração, como herança que não se perde. O Papa Leão XIII, na sua encíclica Supremi apostolatus officium, ensina: “O Rosário foi dado à Igreja como arma de salvação por intermédio de São Domingos; e, ao longo dos séculos, cada geração recebeu-o e entregou-o à seguinte, sabendo que nele se encerra o segredo da paz” (1 de setembro de 1883). São Luís Maria Grignion de Montfort acrescenta: “O Rosário é a oração que a própria Maria nos ensinou; quem reza bem o Rosário chega a conhecer Jesus e Maria como ninguém os conhece” (O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário). Dos primeiros fiéis até aos nossos dias, esta cadeia de amor não se rompeu: cada Ave-Maria é um elo que une os que já nos precederam aos que ainda hão de vir, todos acolhidos sob o manto da Mãe.

O Milagre de Teófilo
O servo que caiu, arrependeu-se, e Maria libertou-o. Ninguém está demasiado perdido para a sua misericórdia.

Gonzalo de Berceo
Primeiro poeta espanhol conhecido: canta as maravilhas de Maria em versos acessíveis ao povo.

Afonso X, o Sábio
As Cantigas dedicadas à Virgem revelam, em cada milagre, o seu amor e proteção.

Guiraut Riquier
Trovador que cantou com ternura a beleza e a bondade de Maria.

As Duas Matildes e Santa Gertrudes
Viram em visões o Coração de Maria como refúgio e caminho: «Por Maria até Jesus» (Revelações).

Santo Alberto Magno
“Maria é a ordem perfeita, a sabedoria feita carne” (Sermão sobre a Assunção). Tudo nela é harmonia.

São Tomás de Aquino
“A dignidade de Maria aproxima-se infinitamente de Deus” (Suma Teológica, III, q. 27). É a criatura mais próxima da Fonte.

Dante Alighieri
Na Divina Comédia, Maria é a luz suprema que acolhe e conduz ao centro da alegria (Paraíso, canto XXXIII).

São Boaventura
“Caminhai por Maria; é o caminho mais curto, mais seguro e mais suave” (Sermões sobre a Virgem Maria). O seu amor é o caminho.

Jacopone da Todi
Canta a dor e a esperança: “Ó Mãe, ó Senhora…”. O amor que sofre e que espera.

Ao longo desta história desde as sombras do Antigo Testamento até à plena luz da Revelação, a Igreja contempla um desígnio que avança com passo firme: Deus preparou Maria desde o primeiro instante. Não foi improvisação, mas fidelidade eterna. São João Paulo II resume: “Maria ocupa na história da salvação um lugar único: Ela é a criatura escolhida antes da fundação do mundo para ser a Mãe do Salvador” (Redemptoris Mater, n.º 1, 25 de março de 1987).
As figuras, as profecias, os Padres, os hinos, as orações, os santos tudo converge para Ela. Como ensinou São Luís Maria Grignion de Montfort: “Maria foi a primeira a seguir Cristo, a única que O seguiu sem vacilar, e por isso é aquela que nos conduz com maior segurança até Ele” (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n.º 64).

Ela é a porta, o caminho, a estrela, a Mãe que o próprio Deus colocou entre a sua infinitude e a nossa pequenez. E no Rosário, que ressoa em cada geração, ouvimos sempre a sua voz a chamar-nos a aproximar-nos de Jesus. Como diz Santo Efrém: “Deus não encontrou morada mais digna em toda a criação do que o seio de Maria” (Hinos da Fé). E por isso, hoje como ontem, a Igreja invoca-A, ama-A e segue-A, sabendo que, por Ela, chegamos mais depressa e com mais segurança a Jesus, o seu Filho.

TEMAS ANTERIORES

A Jesus
por Maria!