«Esta é a vontade de Deus, diz São Paulo, a saber: que vos santifiqueis.» Esta foi a sua divina vontade na Santíssima Virgem e o é em todos nós…Todas as virtudes da Virgem formam a coroa gloriosa da sua santidade. Vimo-la como modelo perfeitíssimo…, como mestra inigualável em cada uma das virtudes…, modelo e mestra da santidade… Que tema tão doce e belo e, ao mesmo tempo, tão difícil: o da santidade de Maria!…
Queremos santificar-nos?… E, se bem se considere, podem separar-se estas duas coisas?… Apenas aquele que conserva a vida da graça na sua alma se salvará…, mas se isso é a santidade…, a graça é a santidade…; naturalmente, tem muitos graus, conforme seja maior ou menor essa graça…, mas sem ela não se entra no Céu…; sem a santidade — que podemos chamar elementar — ninguém se salva…
Por conseguinte, repete e medita isto: «Só quem é santo se salva»… Por tanto, trabalhar para assegurar a tua salvação é trabalhar pela tua santificação. — Insiste neste pensamento, porque é conveniente, na vida espiritual, distinguir entre salvar-se e santificar-se…; e enquanto muitos aspiram ao primeiro, julgam que o segundo se destina apenas a algumas almas prediletas e escolhidas. — É um erro funesto, claramente oposto à vontade de Deus, que não faz acepção de pessoas e a todas chama à santificação…, a todas impõe esta obrigação, pelo menos no seu grau elementar de graça…, e depois convida também a todos a continuarem a subir aos graus mais elevados da perfeição, sem que nessa ascensão existam limites de espécie alguma.
A santidade supõe a graça de Deus…, é a obra-prima de Deus…, a mais divina das suas obras… Mas é também a obra-prima do homem…; nada pode fazer este que seja maior…, mais digno…, mais importante do que trabalhar nesta obra grandiosa da santidade. — Se contemplássemos uma alma em estado de graça…, em estado de santidade…, veríamos nela o próprio Deus…, pois a sua formosura e o seu encanto são a formosura de Deus…; e quanto maior a santidade na alma…, tanto mais íntimo e profundo há de ser esse contacto com Deus…, essa participação nas perfeições divinas.
Esta foi a vontade de Deus para aquela que haveria de ser a sua Mãe: que Ela fosse, ao mesmo tempo, resumo, modelo e fonte de toda a santidade. — No instante mesmo da sua conceição milagrosa, Maria foi inundada de graça santificante…; e, consciente dos seus atos…, com pleno conhecimento e plena posse de Si mesma, lançou-se já então, com todo o ímpeto do seu Coração, para Deus.
Contempla este espetáculo maravilhoso e divino…; nunca se vira…, nunca se repetirá algo semelhante… Deus, que inunda a alma de Maria com a torrente do seu amor e da sua vida…, e Maria, que faz uso de toda a graça recebida, sem desprezar sequer o mínimo dela, para orientar o seu amor — pleno de graça e de gratidão — rumo a Deus.
Isto é: em Maria, a reação foi igual à ação… Compreendes isto?… Recebeu muito…, mas deu igualmente… A primeira ação de Deus sobre a alma de Maria foi poderosamente amorosa e, por isso, encheu toda a capacidade da sua alma de graça santificante…; e assim, correspondendo a essa ação divina — infinitamente amorosa —, a reação da alma de Maria foi, por assim dizer, também infinitamente amorosa: entregou-se sem reserva a Deus e amou-O com todas as forças do seu ser…
E essa graça santificadora…, essa primeira ação de Deus, continua a crescer incessantemente e a desenvolver-se de modo admirável, sempre em progresso, na alma imaculada de Maria…; e essa alma responde sempre de modo adequado…, aumentando continuamente a sua entrega a Deus…, crescendo de modo inefável no amor por Ele…, e, por consequência, nos graus da sua santidade… Aonde, então, chega essa santidade?…
Já dissemos que só Deus pode conhecer a resposta…, porque só Ele sabe até onde chegou a sua ação e a correspondência da alma da Virgem. Aprofunda este pensamento e distingue duas formas de santidade: a santidade real e a santidade moral. — A primeira é a que pertence às coisas especialmente consagradas a Deus…; a santidade de um Templo onde Deus habita…, a dos vasos e objetos empregados diretamente no seu culto…; e no ser humano, pode considerar-se como santidade real a da criança recém-batizada, em cuja alma Deus habita pela graça…; a santidade moral, por sua vez, é a dos atos que correspondem à graça de Deus, mediante a qual a alma, livre e voluntariamente, se entrega totalmente ao amor divino.
Maria é santíssima tanto por santidade real como por santidade moral. — Pela primeira, a sua alma foi concebida numa união íntima e profunda com a Santíssima Trindade. — Diz Santo Tomás que essa união é a mais estreita e forte que pode existir entre uma criatura e o Criador; por isso, a santidade real de Maria é a maior que jamais haverá. — A essa imensa santidade real há de corresponder uma santidade moral harmoniosa, que consiste em aproveitar todas as graças recebidas do Senhor, sem desperdiçar ou inutilizar uma única, para que se possa dizer — com mais razão ainda do que de São Paulo — que a graça de Deus não foi vã nem ineficaz nela…
Em suma: por essa santidade moral, a sua correspondência aos dons divinos foi perfeita…, tal como Deus desejava e esperava…, perfeita em todos os sentidos. — Tens aqui a norma para avaliar a santidade da Santíssima Virgem. — Compreendes, ao mesmo tempo, por que se diz que a santidade é amor…; porque o amor é a fusão de dois corações…, é a transformação recíproca de um no outro…; e eis que, na santidade real, vemos Deus amar a criatura e, por amor, fazê-la participar pela graça da sua própria vida divina…; e a alma entregar-se a Deus…, amando-O…, transformando-se nEle por esse amor…, correspondendo assim, como Deus quer, às suas graças e aos seus divinos afetos.
Portanto, na santidade há sempre este amor entre dois corações…; são necessariamente dois elementos: o Coração de Deus e o coração do homem…; por isso, a santidade é, ao mesmo tempo, de Deus e do homem. — Qual seria, também sob este aspeto, a santidade de Maria?… Como a amou Deus?… E Ela, como O amou?… Toda a sua vida não foi senão amor…; o amor ordenou…, dirigiu…, foi a causa única de todos os seus atos…; a perfeição do seu amor foi a perfeição da sua santidade.
A tua santidade. Examina agora, com seriedade e atenção, qual é a tua santidade…; talvez ainda não te tenhas preocupado com ela, como se não fosse vontade de Deus também para ti. — Grava bem no coração esta verdade: Deus quer, de modo firme…, sério…, eficaz…, que te santifiques… E tu, queres?… Em teoria, sim…; já o disseste muitas vezes…, repetes-o ainda agora… Quando chegará o momento em que o disseres de modo eficaz?… — Deus o quer…, demonstra-to claramente pelos benefícios e graças que te concede…; demonstra-to pela santidade real que te concedeu… A tua alma já foi santa por essa santidade que vem de Deus…; foi-no no Batismo…, é-no na Confissão, quando recebes devidamente a absolvição sacramental…; é-no, sobretudo, na Comunhão, onde Ele se dá e se entrega totalmente a ti… E tu, repito: queres também santificar-te?… O demonstra-lo pela santidade moral do teu coração…, dos teus atos…, da tua correspondência ao amor d’Ele?…
Amas a Deus assim…, com esse amor verdadeiramente transformador e santificador?…
Convence-te de que depende de ti…, e apenas de ti…; começa a trabalhar com dedicação…, continua com grande entusiasmo esta obra grandiosa — e um dia verás, se perseverares nesta graça, o quanto valeu a pena trabalhar…, sacrificar-te pela tua santificação…
Contemplaste a Virgem como modelo de todas as virtudes…, procuraste imitá-la em algumas para te assemelhares, nem que fosse pouco, à tua Mãe… Olha-a hoje coroada pela auréola divina da sua santidade… É também o teu modelo — não quanto à graça extraordinária que Deus lhe concedeu, mas quanto à santidade que Ela adquiriu…, que mereceu ao corresponder à graça… Olha-a como fonte e origem de santidade…, onde Deus reuniu toda a santidade que distribui pelos outros santos… Suplica-lhe que te faça participar também dessa santidade… Que com Ela e por Ela — se souberes contemplá-la…, estudá-la…, imitá-la…, se souberes recorrer a Ela…, se a amares e fores fiel e constante neste amor —, certamente te salvarás…, certamente te santificarás.
O mal, com todas as suas crueldades e as suas incompreensíveis maldades, está sempre ali...
«Ó meu Deus, por que não seremos santos de verdade, para dar ao Senhor esse...
O que há de mais nobre do que a Mãe de Deus? O que há...