Assim como em Deus adoramos três Corações, sendo na realidade um só Coração o que adoramos; e assim como no Homem‑Deus adoramos três Corações que não formam mais do que um único Coração, de modo semelhante veneramos três Corações na Mãe de Deus, que não são mais do que um só Coração.
O primeiro Coração que reside na Santíssima Trindade é o Filho de Deus, que é o Coração do Pai, como já foi dito anteriormente. O segundo é o Espírito Santo, que é o Coração do Pai e do Filho. O terceiro é o Amor divino, um dos atributos da essência divina, que constitui o Coração do Pai, do Filho e do Espírito Santo: três Corações que vêm a constituir tão‑só um único e mesmo Coração, com o qual as três divinas Pessoas amam‑se entre si com um amor tão grande quanto merecem, amando‑nos igualmente a nós com uma caridade incomensurável.
O primeiro Coração do Homem‑Deus é um Coração corporal, divinizado, tal como as demais partes do seu sagrado corpo, pela união hipostática que o une à divina Pessoa do Verbo eterno. O segundo é o seu Coração espiritual, a parte superior da sua santa alma, que compreende a sua memória, o seu entendimento e a sua vontade, e que se encontra especialmente divinizado pela mesma união hipostática. O terceiro é o seu Coração divino, que é o Espírito Santo, que animou eternamente a sua adorável humanidade de modo mais vivo do que a própria alma e o seu próprio Coração; três Corações neste admirável Homem‑Deus que não são mais do que um só Coração, pois, sendo o seu Coração divino alma, coração e vida do seu Coração espiritual e corporal, une‑os numa unidade tão perfeita com Ele que os três Corações não formam senão um único Coração, transbordante de amor infinito para a Santíssima Trindade e de uma incompreensível caridade para com os homens.
O primeiro Coração da Mãe de Deus é o seu Coração corporal, encerrado no seu seio virginal. O segundo é o seu Coração espiritual, o Coração da sua alma, indicado nas palavras do Espírito Santo: «Toda a glória da Filha do Rei procede do seu interior», ou seja, do coração e do mais íntimo da sua alma, assunto do qual falaremos amplamente mais adiante. O terceiro Coração desta Virgem divina é aquele que Ela nos mostra quando diz: «Eu durmo, mas o meu Coração vigia»; isto é, segundo a explicação de muitos Santos Doutores: «Enquanto concedo ao meu corpo o repouso de que necessita, o meu Filho Jesus, que é o meu Coração e a quem amo como tal, está continuamente velando por mim e sobre mim».
O primeiro destes Corações é o corporal, embora plenamente espiritualizado pelo espírito de graça e pelo Espírito de Deus, de que transborda.
O segundo é o espiritual, mas divinizado — não pela união hipostática, como o Coração espiritual de Jesus, a que antes nos referimos —, mas por uma eminente participação das perfeições divinas, conforme iremos vendo ao longo desta obra.
O terceiro é divino: o próprio Deus, pois é o Filho de Deus.
Estes três Corações da Mãe de Deus não são mais do que um só Coração, na união mais santa e mais estreita que jamais tenha havido ou possa haver depois da união hipostática. A estes três Corações — ou melhor, a este único Coração — referem‑se as palavras pronunciadas por duas vezes pelo Espírito Santo: «Maria guardava todas estas coisas no seu Coração».
Com efeito, antes de tudo, Maria guardava todos os mistérios e maravilhas da vida do seu Filho, em certa medida, no seu Coração sensível e corporal, princípio da vida e sede do amor e das demais paixões; porque todos os movimentos e batidas deste virginal Coração, todas as funções da vida sensível que dele procediam e todas as aplicações das paixões acima mencionadas estavam consagradas a Jesus e a tudo quanto n’Ele se operava: o amor, para O amar; o ódio, para odiar tudo Lhe contrário, ou seja, o pecado; a alegria, para exultar na Sua glória e nas Suas grandezas; a tristeza, para se compadecer das Suas fadigas e sofrimentos; e assim com todos os demais sentimentos.
Em segundo lugar, guardava‑as no seu Coração, isto é, na parte mais nobre da sua alma, no mais íntimo do seu espírito. Pois todas as faculdades da parte superior da sua alma se mantinham ininterruptamente aplicadas à contemplação e adoração de tudo quanto ocorria na vida do seu Filho, mesmo no que parecia mais insignificante.
Em terceiro lugar, guardava‑as no seu Coração, no seu Filho — espírito do seu espírito e coração do seu Coração —: Jesus guardava‑as para Ela, sugerindo‑lhas e confiando‑lhas à memória quando assim O julgava conveniente, quer para que Lhe servissem de alimento à alma na contemplação, onde Lhe prestava as honras e adorações devidas, quer para que as pudesse transmitir aos Apóstolos e Discípulos, que as haviam de pregar aos fiéis.
Eis o que entendemos por Coração admirável da predileta de Deus, que vem a ser imagem fiel do adorável Coração de Deus e do Deus‑Homem.
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